domingo, maio 28, 2017

Lembranças do que não vivi

tostão(Tostão - Folha) Na época de treinamentos da seleção brasileira para a Copa de 1998, o time, que já estava na França, foi à Espanha, jogar um amistoso contra o Athletic Bilbao. Eu estava lá. Na porta do vestiário do Brasil, estava escrito: Brasil Nike. Achei um absurdo. A Nike era muito mais que uma patrocinadora. Ricardo Teixeira era o presidente da CBF.

Anos atrás, Ricardo Teixeira foi acusado pelo FBI de ter recebido propina, junto com o empresário José Hawilla, dono da agência de marketing esportivo Traffic, no contrato da CBF com a Nike. Nessa semana, Sandro Rosell, que era executivo da Nike no Brasil, foi preso na Espanha, acusado de receber R$ 50 milhões e de ter dividido com Ricardo Teixeira, em uma negociação ilegal de jogos da seleção brasileira. Rosell era figura repetida na delegação brasileira em Copas do Mundo, ao lado de Ricardo Teixeira.

Rosell, presidente do Barcelona entre 2010 e 2014, renunciou ao cargo após ter sido acusado de fraude fiscal na contratação de Neymar.

De vez em quando, alguém me pergunta por que não fui a Barcelona receber o tradicional e anual prêmio literário Manuel Vázquez Montalbán, que me foi concedido em dezembro de 2014, por uma comissão de jornalistas da Catalunha.

Ao receber a notícia, fiquei muito contente e com muita vontade de ir. Aí, algumas coisas me incomodaram. Os gentis dirigentes do Barcelona pediram para posar para uma foto vestido com a camisa do clube. Achei estranho, pois, não sabia, naquele momento, o que teria o prêmio a ver com o clube. Senti-me como um garoto propaganda. Não vesti, mas fiz a foto segurando a camisa, o que faz pouca diferença. Arrependi-me.

Disseram-me ainda que eu teria de dar algumas entrevistas, que me encontraria com Neymar, que receberia o prêmio em uma solenidade no estádio e que assistiria à partida entre Barcelona e Real Madrid em um dos lugares reservados à diretoria e convidados. Talvez me sentasse ao lado do ex-presidente Sandro Rosell por sua ligação com o Brasil.

Mesmo sabendo que a Fundação Barcelona é a promotora da premiação, percebi que o evento era muito mais do clube do que um encontro literário. Como faço questão de ter um distanciamento de jogadores, técnicos, dirigentes e clubes, desisti de ir a Barcelona, sem recusar o prêmio, do qual me orgulho. Já tinha marcado a data da viagem, mas avisei, com antecedência, de minha desistência. Certamente, os dirigentes não gostaram.

Várias vezes, recusei homenagens do Cruzeiro, clube com o qual tenho uma bela história, para evitar qualquer constrangimento em minhas opiniões. Não sou colunista do Cruzeiro, do Barcelona, de Minas Gerais nem do Brasil. Tenho a obrigação de elogiar e de criticar, seja quem for.

Além de minhas razões de não ir a Barcelona, que são só minhas e que muitos vão achar preciosismo, esquisito, sou um homem silencioso, retraído, que fica estressado para falar em público, ainda mais em portunhol.

Pretendo voltar à belíssima Barcelona e repetir o que já fiz, quando Ronaldinho brilhava no clube. Comprarei meu ingresso, como um turista desconhecido, sentarei na arquibancada e me deliciarei e baterei palmas para as jogadas de Neymar e Messi e para o belo futebol do Barcelona, o time que, quando estava no auge, foi o que mais me fascinou nas últimas décadas.