domingo, abril 23, 2017

Ministros chegam à conclusão de que evidências, por mais factíveis que sejam, não valem como prova

 Dois ministros do STF conversam.
Antonio Tabet Foto: O globo
Antônio Tabet (O Globo)
— Roberto, o colega me permite fazer uma pergunta de cunho pessoal?
— Evidente, Marcelo!
— Você acha que a coisa vai ficar feia?
— Ô, se vai!
— Já tá, né?
— Opa! Mas vai piorar.
— Também acho. Muito!
— Quando chegar nele...
— Nossa! Quando chegar nele...
— Imagina a quantidade de gente que vai aparecer aqui na porta!
— Vai parecer Copa do Mundo.
— Copa do Mundo no 7 a 1, né?
— Não. Quis dizer que vai ter muita gente comemorando.
— E protestando.
— Sério?
— Claro, Marcelo.
— Protestando por quê?
— Porque não temos provas.
— Não?
— Não.
— Peraí. É muita coisa, Roberto.
— Tipo...?
— Tipo a venda do acordo de leniência.
— Tá. Mas cadê a grana?
— Tem o repasse ilegal pra campanha deles em São Paulo em troca do tal Certificado de Incentivo.
— Tá. Mas cadê a grana?
— Tem também os milhões para aquela concorrente da “Veja”, a comissão das empreiteiras pro partido dele, o tráfico de influência em Angola, os contratos com a empresa do filho que nunca trabalhou no ramo, as doações ao Instituto, as palestras que ninguém viu, as mochilas recheadas que o assessor do Italiano trazia, a “mesada” pro irmão, além de toda a campanha da outra lá.
— Mas não tem grana, percebe? Cadê as contas no exterior? Cadê os cofres? Precisa de alguma coisa concreta. Prova!
— Tem o sítio, o tríplex e o pedalinho.
— Porra! Mas isso não é grana.
— Não?
— Claro que não. A mulher do Cabral, numa tarde de joalheria, gastava dois sítios e três tríplex desse. E os pedalinhos... Francamente, né?
— Roberto, ele não é que nem os outros.
— Evidente que não, Marcelo. Ele é muito melhor.
— “Pior” você quer dizer.
— Depende do ponto de vista. Contra os outros, nós tivemos provas. No caso dele, vão chamar de inocente, imbecil ou gênio do crime. E olhando bem pra cara dele... Adivinha.
— Mas não é porque ele não ostenta que é menos criminoso, né? Ele pode não ter dinheiro no colchão, mas os amiguinhos e os parentes...
— Aí é que tá. Ninguém vai vir aqui na porta por causa de amigo ou parente. O problema é ele! Depois que o Pelé sumiu, que o Roberto Carlos ficou antipático e que a Xuxa foi pra Record, coitada, parece que ele pegou esse vácuo. Ele é uma espécie de Papai Noel dos alunos melequentos da turma do fundão, sabe? Vão dizer que é tudo perseguição da mídia.
— Roberto, só durante o governo dele foram dezenas de contratos nos “países vermelhos”. Quase todos daquela mesma empreiteira. Podem muito bem ter depositado lá fora. Aí, já era. Os caras não têm nem papel higiênico e você quer o quê? Recibo de propina? Com carimbo cubano? Venezuelano? — riu.
— É sério. Todos os outros incriminados tinham. De um jeito ou de outro.
— Bom... Então você tá me dizendo que se os irmãos dele, o braço direito dele, o partido dele, os marqueteiros dele, o instituto dele, a sucessora dele, o sítio dele, o tríplex dele e até os pedalinhos dele recebiam dinheiro ilegal, ele é inocente porque a grana não tá com ele agora? É isso?
— É isso.
— Precisa da grana.
— Precisa da grana.
— Precisa de prova.
— Precisa de prova.
— Entendi. Poxa, obrigado pela explicação. Vai me ajudar em uma outra aqui.
— Sério? Qual?
— Um suposto assassinato sem cadáver. Vou mandar soltar o goleiro, então.