quinta-feira, abril 20, 2017

As receitas que nunca criei

        Profª Jussara Whitaker (Na edição 229 do Jornal do Comércio)
        Tornou-se traço de cultura as pessoas dizerem que “na casa da vovó tudo pode”. As crianças, com status de neto - normalmente com poucos limites- vasculham geladeiras sem se preocuparem em fechar as portas, comem as guloseimas que querem em qualquer momento, mesmo que seja pouquinho antes de uma refeição. Acabam com batons e lápis de sobrancelhas, derrubam copos, desfilam pela casa com os sapatos da avó, destroem plantas, enfim, são senhores absolutos do espaço que nem delas é.
        Na medida em que são repreendidas pelos pais, é no colo da avó que encontram o abrigo aconchegante contra as “injustiças” paternas, e assistem de camarote - sem nenhuma cerimônia - lá do meio do colo macio, os pais receberem uma bronca enorme por terem ousado restabelecer uma certa ordem no emaranhado de netos e avós.
        As avós, com algumas exceções, nem percebem que as coisas mudam de lugar, quando os netos aparecem. O amor – o delas -  entende que tudo está ao alcance das mãos infantis e de sua curiosidade. A criança se acostumará, na vida, a brigar por tudo o que deseja. Não terá medo de obstáculos, porque os escala, os derruba, até atingir os objetivos propostos. Mexer é um ato de experiência, de curiosidade de olhos que nada perdem. Atrevidos. 
       Toda avó deseja - lá no fundinho da alma – deixar alguma marca na vida dos netos. Algo para ser lembrado, e que possa ser dito: [...] na casa da vovó [...] o bolo da vovó [...] os doces da vovó [...] a torta ou a macarronada da vovó [...] as broncas de amor da vovó.  Este também é o meu desejo, e uma grande preocupação, porque nunca fui uma avó que tenha feito bolos, tortas. Assim, procuro na memória algo que eu possa eternizar através da vida, que transcenda o tempo conhecido, que possa fazer parte do legado desses pequenos cidadãos: Cecília, Giovanna e Yuri (em absoluta ordem alfabética). 
        Pensei em catalogar receitas, montar um livreto, chamar um ilustrador, um título em letas garrafais: as recitas da minha avó.  Mas seria um enorme problema, porque eu e as panelas não nos damos muito bem. E, se ao invés das receitas eu fizesse uma espécie de dicas da vovó: como espremer o limão para se fazer um bom chá, como abrir um vidro de palmitos em cinco segundos, e outras mais? Não entendam como rejeição o meu desapego à cozinha. Na verdade, não o é, apenas que esta magia de combinar alimentos levando-se em conta a nutrição, a beleza dos pratos, as cores, o sabor, os mais diversificados temperos e uma grande dosagem de criatividade, não é para qualquer um. Apenas não me sinto apta à fazê-lo. Encaro como verdadeira arte as invenções maravilhosas que homens e mulheres realizam em seus espaços culinários.
        Diante do fato, restou-me pensar em uma outra alternativa. Algo próximo do que penso saber fazer, e portanto, optei por deixar como herança algumas reflexões acerca da vida, temas que estão presentes no cotidiano de homens e mulheres. Uma fala aos meus netos, na intenção de ajudá-los a se construírem como cidadãos planetários. Se não pelas receitas, talvez assim eu possa fazer parte de suas existências, mesmo quando não estiver mais nesta vida: escrever e contar histórias.
        São as minha histórias dedicadas a eles, onde nosso jogo de faz de conta - o meu e os deles – se fazem nas dimensões da ambientação da região amazônica, que de maneira prazerosa, divertida e afetiva, descortinam enredos com personagens que são ao mesmo tempo ícones do imaginário amazônico tanto quanto elementos expressivos da cultura. As histórias preocupam-se em ofertar parte do legado cultural amazônico mas também trazem um olhar crítico em relação à algumas questões ambientais que tem, ao logo dos tempos, se transformado em temas relevantes na sociedade brasileira.

        Crio histórias para eles por não gostar dos roteiros originais. Faço assim também com as músicas. Não gosto de cantar a briga do cravo com a rosa, muito menos que “[...] sambalelê tá doente, tá com a cabeça quebrada. Sambalelê precisava, é de umas boas palmadas”. Doente, quebrada, palmadas, definitivamente não a canto assim, meus netos merecem conviver com palavras mais otimistas, menos agressivas. Outra canção que me apavora é sobre o lobo mau: “[...] eu sou o lobo mau, lobo mau, lobo mau, eu pego as criancinhas pra fazer mingau.” Isto sem me esquecer do boi da cara preta, que se esmera de pegar os meninos que têm medo de careta.
       Creio que quanto às histórias centenárias, estão impregnadas de justiça feita pelas próprias mãos. Doses exageradas de inveja, de maldade, de tristeza, estão tatuadas na pele dos personagens. Alguém conhece a estória da madrasta que matou a enteada por ciúme e a enterrou no quintal? Como a menina tinha longos cabelos loiros, exatamente no local em que o corpo estava, nasceu uma roseira de enormes rosas brancas. Em uma segunda versão, a roseira foi substituída por um majestoso pé de milho. É claro que a criança desde cedo aprende a temer as fatídicas madrastas, além de cultuar o branco como sinônimo da pureza, da bondade, não sei mais o que. Em tempo: fico preocupada com uma das minhas netas que tem os cabelos loiríssimos, imaginando-a transformada em uma espiga de milho.
           Acredito que a pior das estórias é a da Moura Torta, parece-me que a história migrou de Portugal para o Brasil e não sei que adaptações foram feitas neste processo migratório, mas o texto tem uma boa dosagem de maldade, de ciúme, vingança, além, é claro, da figura da princesinha bobinha e desprotegida, espelho da futilidade e da inoperância.
          Se bem me recordo, a Moura era obrigada a pegar água no rio todos os dias, tendo, portanto, que carregar pesados e enormes potes de barro. A tal princesa estava escondida no galho de uma árvore, tendo seu belo rosto refletido nas águas. Claro que a Moura acabou por achar que tal imagem à ela pertencia e não se conformava em ser tão bela e ter que carregar pesados potes.  No desenvolvimento da estória a bruxa feia, ou seja, a  Moura Torta, acaba descobrindo a verdade e por vingança enterra um alfinete mágico na cabeça da princesa que vira uma pomba, ao sons de terríveis gargalhadas de vingança que brotam da boca da maldita. É de se pensar, com tristeza, na princesinha no galho da árvore de uma bucólica paisagem, esperando o príncipe que por algum motivo - que não aparece na estória - ali a tenha deixado, enquanto fazia não se sabe o que. Claro que no final, a Moura é condenada a entrar numa espécie de barril repleto de enormes pregos, que vão furando seu corpo durante uma infindável descida de uma montanha O requinte do castigo foi completo. O príncipe ordenou que o barril fosse levado, com a Moura dentro, no cume da mais alta montanha e de lá, empurrado para baixo.
        Dá para imaginar a cena. O pior é repeti-la para crianças, que desde cedo vão recebendo informações pesadas sobre castigo - crueldade.  Depois de alguns anos, será bem provável que estas mesmas crianças, assustadas com o castigo da Moura - que teria tido seu corpo completamente perfurado por terríveis pregos -  acabem por defender a pena de morte. Não é exagero, a construção ideológica começa bem cedo, dentro de casa, diante dos fatos e do cotidiano das culturas e das sociedades.
        Meu neto mais velho não gostava da história do casamento da Dona Baratinha. Não entendia o rato se afogando na panela de feijão. Claro que já mudamos, juntos, o final da estória, nada de rato morto e afogado. Merecemos um final menos trágico. É tão intensa certas figurações na construção cotidiana das crianças, que ele me perguntou se alguém da família tinha caído na panela de feijoada. Como todos nós gostamos de feijoada, deve ter ficado preocupado. Quanto a Baratinha, também não entendia como “alguém” podia ficar horas e horas sem fazer nada, debruçada numa janela. -“ela não trabalha, vovó?”. Questionamento extremamente significativo. Ele está acostumado a ver o trabalho como um acontecimento normal, desempenhado por homens e mulheres da família. Ao trabalho, está agregado um valor social e cultural que lhe é transmitido diariamente, portanto, uma baratinha tão desocupada é alguma coisa, no mínimo, estranha. A extraordinária observação está repleta de significação, coletada no cotidiano de sua vivência e experimentação.
         A divisão entre o bem e o mal mais clássica é aquela onde príncipes e fadas são o bem, os monstros e as bruxas ficam por conta do mal, e olhe que esta representação vem aparecendo bem antes do medievo, com a preocupação de transmitir e sedimentar valores e normas de conduta e convício social.  Para bem lembrar, não podemos nos esquecer da Branca de Neve, da Cinderela, cuja origem não está na Europa e sim nos contos orientais, embora tenham sofrido modificações através das interpretações dos europeus, se adequando às manifestações e significações culturais europeias.
        Caminhando pela Idade Média, pelo Renascimento, as estórias e os contos populares vão adquirindo novas almas, ora enfocando as fadas como personagens dos enredos de cavalaria, antes como seres mitológicos celtas, chegando em nosso mundo pela fala de nossas avós, de acordo com os valores morais de cada época. Pois bem, se a Cinderela pode ser adaptada, porque a nossa boa e velha baratinha que espera pelo noivo também não pode ser feliz no final da estória? Junto com o ratinho, e sendo uma baratinha mais produtiva?
        Esta possibilidade da flexibilidade histórica me ampara no desejo de subverter as estórias que conheço, e escolher os caminhos que mais acredito para repassá-los aos meus netos. Portanto, me dou o direito de elaborar outros roteiros, mudar os personagens, se isto for para que eles tenham um entendimento melhor do mundo, das pessoas, crescendo com mais solidariedade, acreditando numa proposta de humanidade que seja um bem coletivo.
        Ao invés de receberem um tradicional livro de receitas, deverão, no presente e no futuro, entender que nem todo o cravo está com a cabeça quebrada, que nem toda bruxa é malvada, muitas delas fazem parte do legado de sábias mulheres conhecedoras de alquimias que nada mais são do que os unguentos e as garrafadas encontradas em nossa contemporaneidade, deflagrado pelas nossas rezadeiras e benzedeiras.
        Na casa da vovó tudo pode! Pode sim, sentar num bom colo e desfrutar de preciosos tesouros transformados em importantes ensinamentos através das estórias e contos infantis. Esta sim, é a uma herança que lhes deixo. Junto aos contos infantis remexidos, ainda tem as coisas que criamos - eu e eles-  as nossas histórias.

            Profª Jussara Whitaker