quinta-feira, janeiro 12, 2017

Artigo: Eu não queria muito

Eu não queria escrever sobre politica, sobre Renan Calheiros, sobre a mansão de Sérgio Cabral e seu helicóptero, comprados com nosso dinheiro, sobre como todo político consegue enriquecer tão rapidamente, e a justiça cega, muda e surda não faz nada; só depois de uma denúncia, depois de milhares de pessoas ficarem sem saúde, crianças sem merenda, trabalhadores ficarem sem salários, depois do caos instalado, resolve sair do seu berço esplêndido.
Não quero falar sobre manobras dos políticos para continuar roubando o país e continuarem impunes; sobre como cada dia a vida da gente não vale nada; onde assaltantes não escondem mais o rosto para assaltar, matar, estuprar; na realidade, querem holofotes, querem ser filmados ou eles mesmos filmam e jogam nas redes sociais; sobre crianças vítimas de abusos, muitas  vezes com conivências de pais despreparados que também não tiverem oportunidades, que  foram vítimas também de um sistema cruel que não prioriza a educação, cultura e saúde.
Não queria escrever sobre as incertezas de um final de mandato e o início de outro, aqui em Itaituba; do medo que muitos funcionários tiveram de não receber salários, de estarem desempregados depois no Natal e do Ano Novo, ou não continuar trabalhando no mandato atual; sobre a imprudência, imperícia e negligências de centenas de motociclista que andam na cidade, sem capacete, três ou até mais em uma moto, levantando pneus, fazendo ultrapassagens perigosas e em alta velocidade, arriscando suas vidas e de terceiros, principalmente terceiros
Não queria escrever sobre os bilhões de recursos que são desviados da saúde, educação, segurança e infraestrutura há dezenas de anos e que são as causas de tudo que acabei de escrever até agora, e sobre as quais não queria escrever.
Por causa da ganância de alguns, estamos criando uma sociedade sem perspectiva de futuro, que vê no imediatismo a única chance que tem de aproveitar “o melhor“ da vida, sem pensar na consequência de seus atos. Por culpa dessas pessoas, estamos vendo a ascensão de gente como o deputado federal Jair Bolsonaro, com toda sua arrogância e intolerância.
Estamos caminhando para uma divisão da sociedade ainda maior, aquela que não aceita mais tanta impunidade, tanto descaso, tanta roubalheira por parte dos políticos, tanta falta de segurança, e por isso vê em Bolsonaros da vida, a solução para os problemas.
Outra questão diz respeito a esse sistema corrupto, parte de um segundo grupo, que se utiliza de pobres coitados para manter esses pilantras no poder, os quais se organizaram em grandes grupos mafiosos institucionalizados que são os partidos, haja vista o volume de corrupção e valores roubados que superam qualquer grande traficante.  
E existe ainda um terceiro grupo, formado por intelectuais, sindicalistas com suas historias de lutas, seus heróis do passado e heróis atuais, que acreditam numa sociedade mais justa e igualitária, mas que se perderam no caminho, como no caso o PT e seus aliados de esquerda, salvo exceções que resolveram sair quando viram que os princípios haviam mudado e se organizaram formando mais partidos.
O que eu queria era poder pegar meus filhos para andar de bicicleta na ciclovia da minha cidade, com ruas arborizadas e limpas, chegar até o parque, deixá-los brincar com outras crianças. À noite poder sentar na frente de casa, tomar uma cerveja e ouvir música enquanto converso com o vizinho. No trabalho e nas ruas, sentir que as pessoas estão mais confiantes e acreditam num futuro melhor. Ligar a televisão e ouvir que os índices da nossa educação estão lá em cima.
Na realidade, queria escrever coisas boas, bonitas que fizessem as pessoas se emocionar, sentindo-se felizes, que lhes deixassem em estado de paz. Não quero um mundo perfeito, mas quero um mundo mais humano, onde o homem respeite seu semelhante e seja solidário, onde haja mais coletividade e amor ao próximo.

          Dr. Antônio Alvarenga, médico. Articulista do Jornal do Comércio. Artigo publicado na edição 225, que circula desde terça-feira