quinta-feira, novembro 03, 2016

Dr. Carlos Augusto Hummes: "Tecnicamente, todo tipo de câncer pode ser curado"

Dr. Carlos Augusto Hummes
            O Dr. Carlos Augusto Hummes, oncologista clínico, que faz parte da equipe de oncologistas do Hospital Regional do Baixo Amazonas, sediado em Santarém, e diretor da Oncomaster, clínica particular para tratamento de câncer, também localizada naquela cidade, esteve há um mês em Itaituba, a convite da Ansonic, para participar da abertura da programação intitulada Outubro Rosa, e Novembro Azul. Ele proferiu uma palestra com muito didatismo, a respeito da doença que assusta qualquer ser humano. Ele concedeu uma entrevista muito esclarecedora ao Jornal do Comércio sobre esse assunto.

JC - O senhor falou, que hoje em dia, ser diagnosticado com câncer, não é, necessariamente uma sentença de morte.

Dr. Carlos - É verdade.  A chave do sucesso do tratamento está na detecção precoce. Então, como muitas vezes as pessoas tem dificuldade de acesso aos serviços de saúde, por uma questão de uma cultura de não procurar esses serviços, ou porque por preconceito não procuram fazer os seus exames, dão chance para que a doença se desenvolva. Tecnicamente falando, todos os cânceres são curáveis. Basta detectar no momento certo.

JC - Há casos de pessoas, que mesmo tendo condições, não procuram fazer exames preventivos; por isso, quando descobrem algum de tipo de câncer, muitas vezes já não há muito o que se fazer...

Dr. Carlos - Infelizmente isso também é verdade. Tem uma situação que é da natureza humana, que é negar que tem uma determinada doença potencialmente fatal. Isso pode acontecer com uma pessoa que é promíscua, mas, não faz exame de HIV, ou em quem sente que está emagrecendo sem aparentemente não sentir nada, ou em quem está com problema para urinar, ou em mulheres que estão com sangramento vaginal, mas não vão ao ginecologista porque tem medo de fazer um exame que possa confrontá-la com uma doença que pode ser fatal. Isso é um grande inimigo da gente, e é como varrer a sujeira para debaixo do tapete; uma hora a sujeira vai aparecer.

JC -  Quais são os tipos de cânceres mais fáceis de serem detectados no começo?

Dr. Carlos - Os cânceres cujos exames temos à disposição, os quais podem mudar a história da vida de uma pessoa são: de colo uterino, com o preventivo PCCU; de intestino, com a colonoscopia e a pesquisa de sangue oculto nas fezes; de mama, com a mamografia e ultrassonografia mamária; o câncer gástrico, com a endoscopia e de próstata com o exame de sangue e o toque retal. Esses são os exames que basicamente detectam os cinco tumores mais comuns. Já o câncer de pulmão, muitas vezes, quando é detectado já é fatal. Então, o segredo é não fumar.

JC - Entre os homens, ainda é grande o preconceito contra o exame de toque retal?

Dr. Carlos - Infelizmente, sim. Muitos homens sentem-se feridos na sua sexualidade, ao terem que fazer um exame que introduz um dedo no ânus. Esse é um exame que pode salvar muitas vidas, porque alguns exames de sangue podem dar negativo e a pessoa pode ter câncer de próstata. Então, a cada dez exames de sangue, um deles é negativo e a pessoa tem câncer. Por isso, o exame do toque é essencial. Mas, muitos tem medo de fazer. O homem já tem dificuldade de ir ao médico; geralmente vai com uma mulher, a mãe, a esposa ou a filha, quando vai. Esse é um problema que a gente tem que mudar na cultura das pessoas.

JC - Entre as mulheres, que costumam ser mais cuidadosas com a saúde, ainda existe resistência a algum tipo de exame?

Dr. Carlos – Na verdade existe. Isso se deve à falta de educação na questão da saúde, sobretudo entre aquelas de baixa escolaridade, onde acontece a maior incidência de câncer de colo uterino. Muitas vezes, embora muitas mulheres vejam na TV chamadas a respeito da importância de fazer exames de rotina, elas não absorvem isso como uma realidade na vida delas. A segunda situação é das mulheres que tem receio de mostrar seu corpo para um médico, ou até para uma médica, para fazer um exame ginecológico. A terceira questão é o marido que não deixa a mulher ir, temendo que alguém se aproveite da situação de sua nudez, o que é um absurdo.

JC - Quem tem uma rouquidão crônica, acompanhada de pigarro, deve tomar cuidados, pois isso pode ser um sinal de um problema mais sério, como um câncer de garganta?

Dr. Carlos - A rouquidão, também conhecida como disfonia, no termo médico é um dos sintomas com os quais a gente tem que abrir o olho. Esse cuidado deve ser ainda maior entre pessoas que fumam, ou fumaram. Uma pessoa que do nada, não era rouca e começa a ter uma rouquidão, sim, deve ser avaliada por um especialista, que é otorrino para fazer o exame chamado de laringoscopia. Rouquidão pode ser uma coisa séria. 

JC - Nós vivemos muito próximos da linha do Equador e por isso estamos sempre muitos expostos aos raios solares. Isso contribuiu para que haja muitos casos de câncer de pele nessa área do globo terrestre?

Dr. Carlos – Na verdade, é muito comum esse tipo de câncer aqui. A gente tem uma população, etnicamente, aqui no Norte, nos municípios de Itaituba, Santarém, Jacareacanga, Novo Progresso, Oriximiná, Óbidos e outros, na qual as pessoas de origem indígena que tem uma pele dotada de mais melanina, que é um fator protetor, que também incide sobre pessoas de origem negra, que é menos suscetível ao câncer de pele. Mas, as pessoas que tem origem europeia, que vivem na região, são mais suscetíveis, por terem menor proteção de melanina, a desenvolver esse tipo de câncer, pelo fato que você ressaltou na pergunta, de vivermos muito próximos da linha do Equador, onde o Sol é extremamente agressivo.

Não precisa nem ficar muito tempo exposto. Então, o ideal é que a pessoa de pele mais clara use protetor solar acima do fator 50. Usar chapéu é outra recomendação importante, mas, chapéu com aba larga. Esse é o câncer de maior incidência no mundo inteiro. Como ele dificilmente mata uma pessoa, causa menos terror. Há dois tipos de cânceres de pele. Tem o não melanocítico, que não vem de um sinal, que são em torno de 80% dos casos, que geralmente, com uma cirurgia, ou uma sessão de cauterização, geralmente a pessoa fic curada. Mas, se não cuidar ele pode matar, pois pode espalhar-se pelo corpo.

O mais perigoso é aquele que vem de um sinal, chamado melanoma. Então, um sinal que muda de cor, que tem tamanho maior que seis milímetros, que tem as bordas todas irregularidades, que é recente e é muito escuro, tem mais de uma cor, coça e sangra, esse você tem que ir ao médico com urgência, porque esse sim, pode se espalhar pela corrente sanguínea e ir para o cérebro, pulmão e fígado e pode matar.

JC – Alguns doentes de câncer acham que o tratamento em centros maiores é mais avançado. Isso tem fundamento, ou o protocolo é o mesmo?

Dr. Carlos – Em relação ao atendimento feito pelo SUS, o tratamento é o mesmo. Eu, que vim de Porto Alegre, e estou há quatro anos aqui, faço cá, o mesmo tratamento que fazia lá. A maioria dos protocolos é internacional. Se você vai fazer radioterapia, por exemplo, seja aqui, nos Estados Unidos ou na Alemanha, a máquina vai ser a mesma. O SUS dispõe de nove, entre os dez tratamentos mais atualizados, em qualquer estágio, em qualquer fase, com medicamentos de alta tecnologia.

Em algumas situações, que são poucas, há diferenças, mas, nós, oncologistas da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica, estamos lutando para incluir no SUS alguns tratamentos de última geração, que embora sendo poucos, fazem muita diferença. Essa é uma questão de política de saúde que nós estamos tentando incluir. Mas, de uma maneira geral, posso dizer que hoje, cerca de 95% dos tratamentos de cânceres são os mesmos, do Oiapoque ao Chuí são os mesmos.

JC - Como se deu essa mudança em sua vida, de Porto Alegre para Santarém? E gostou das condições de trabalho do HRBA?

Dr. Carlos – O Hospital Regional do Baixo Amazonas está entre os dez melhores hospitais públicos do Brasil. Eu, quando vim para cá, vim de hospitais de ponta lá no Rio Grande do Sul. A primeira coisa que eu quis ter certeza era onde eu estava me metendo, porque eu não conhecia o Norte, esse lugar maravilhoso, onde provavelmente vou passar o resto da minha vida. Queria me certificar de que eu poderia tratar os pacientes com qualidade.

Fiquei, realmente, muito bem impressionado com o HRBA, que é uma pérola. É um hospital muito bem administrado pela organização Pró Saúde. É auditado por algumas instituições de renome nacional e estamos no nível mais alto, que é o nível de certificação 3.


Nossa próxima etapa será fazer transplante. Virá uma equipe médica para treinamento de transplante de rim, que deverá ser o primeiro a ser feito. A dificuldade que estamos enfrentando é que estamos recebendo pacientes de Belém, de Manaus e de Macapá, o que sobrecarrega o HRBA. O Hospital Regional do Tapajós, aqui em Itaituba, não vai ser de alta complexidade. Não terá tratamento oncológico. Esses casos vão continuar sendo tratados em Santarém. Pelo menos é o que fui informado.