domingo, novembro 13, 2016

Cientista da Religião fala sobre intolerância

Cientista da Religião fala sobre intolerância  (Foto: Octávio Cardoso)
professor José Antônio Mangoni
Em tempos tão conturbados como os que vivemos atualmente, o blog sugere aos seus leitores, que leiam essa entrevista

Tema no último Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), a intolerância religiosa se tornou assunto recorrente nos debates dentro e fora das redes sociais. Problema que pareceria perder força no século 20, o preconceito em razão do credo tem se revelado bem enraizado em boa parte do mundo. No Brasil e no Pará, não é diferente. São cada vez mais comuns os registros de violência contra seguidores de religiões de raiz africana, quebra de imagens consideradas sacras e outras agressões. Nesta entrevista ao DIÁRIO, o professor José Antônio Mangoni, de Ciências da Religião, da Universidade do Estado do Pará (Uepa), analisa esse cenário, defende o diálogo e faz um alerta: a intolerância e o fundamentalismo são uma bomba que precisa ser desarmada. 

P: O senhor percebe um aumento da intolerância religiosa ou isso está ficando apenas mais visível?

R: A intolerância religiosa tem aumentando consideravelmente em nosso País. Ela se manifesta na quebra de imagens sacras, na expulsão de adeptos das religiões afro de suas casas, nas ofensas estampadas nas redes sociais, nas declarações de líderes religiosos e de líderes políticos oriundos de denominações fundamentalistas.

O que tem provocado esse aumento?

R: A intolerância é sempre fruto de uma crise social e do medo do diferente. Hoje, o planeta vive essa crise instalada em várias áreas: religião, política, cultura, sexualidade, família... Diante da crise, há um grupo que se apega ao passado e demoniza os que os desafiam a sair das relações que não mais existem. Volta à ditadura, escola sem partido, demonização dos professores, moralismo, racismo, xenofobia, intolerância religiosa, vingança, violência como solução, são alguns exemplos. Como dizia o pensador Gramsci: “O Velho Mundo morreu. O Novo Mundo tarda a aparecer. E neste claro-obscuro, surgem os monstros”.

P: Quais os grupos mais vulneráveis à intolerância?

R: São grupos que apresentam propostas diferentes das tradicionais, o que gera insegurança por parte dos que acreditam que possuem a única verdade possível. Podemos citar estudantes que desafiam a autoridade dos adultos, grupos que apresentam formas plurais de vivência familiar e sexual, raças que carregam historicamente a exclusão, mulheres que, por sua atitude, colocam em xeque o patriarcado, fiéis que questionam tradições e doutrinas religiosas, entre outros. Sempre fico com um pé atrás diante dos que têm muitas certezas, sejam religiosas ou políticas, pois esse é o ambiente propício para o preconceito e para a demonização. 

P: Esse foi o tema do Enem, um exame feito por milhões de jovens. O senhor acredita que esse exercício pode levar a reflexões?
R: Somente o conhecimento e a busca do diálogo podem desfazer preconceitos. E fazer perceber que o outro, o diferente, é tão humano como cada um de nós. O tema do Enem contribuiu para tornar pública a discussão, mas é preciso dar continuidade ao debate, para percebermos que a intolerância baseada no preconceito pode ampliar o mundo da violência, e perceber a quem serve esse estado, que se assenta sobre um projeto de poder, do qual alguns poucos se beneficiam, seja no campo da política ou no das denominações religiosas.

P: É inegável que está havendo uma guinada conservadora no mundo, como a eleição de Donald Trump. De que forma isso interfere no tratamento das diferenças? 

R: A diferença sempre foi um problema na História. Podemos lembrar das perseguições às “bruxas”, aos bárbaros, aos índios. Os grupos que detinham o poder queriam o nivelamento de todas as diferenças, pois estas colocavam em risco a sua verdade. Por isso, devemos refletiR: a quem favorece essa intolerância?

P: Quais os riscos do fanatismo religioso?

R: O fanatismo é uma bomba-relógio. Einstein afirmou que a 3ª Guerra Mundial terá origem na religião. Ou desarmamos essa bomba, afirmando o diálogo e o respeito como princípios imprescindíveis, ou corremos um sério risco de vermos uma violência desencadear-se com rapidez e tomar proporções mundiais.

P: O Brasil é um País de sincretismo religioso. Isso não deveria funcionar como um antídoto contra fundamentalismos? Por que não funciona?

R: O sincretismo é usado, por algumas religiões, como antônimo de pureza. Não existe pureza religiosa, pois toda religião nasce nas crises e procurando dar as respostas que as antigas religiões já não conseguem dar. Seu nascimento se dá a partir de uma circunstância histórica e tendo por pilares a religião antiga que a gera. O sincretismo é, assim, a possibilidade da religião. A pluralidade religiosa é vista como erro e assim também o sincretismo, principalmente por parte da religião dominante. As demais, em geral, têm no pluralismo e no sincretismo seu ponto de partida para o diálogo e a convivência harmoniosa.

P: Como o senhor avalia a interferência das religiões no Estado? Podemos deixar de ser um Estado laico? 

R: O que está em risco não é a laicidade, mas a própria República. As grandes empresas e corporações apropriam-se do poder a partir de sua interferência no campo da política, elegendo seus representantes nas Câmaras de Vereadores, nas Assembleias Legislativas e no Congresso, bem como no executivo e judiciário. A mesma estratégia está sendo usada hoje pelas denominações religiosas. Ambas colocam em risco a República por privatizarem o que é público. Uns o fazem em nome dos interesses privados. Outros, em nome de Deus. A religião é apenas a embalagem moralista que reveste interesses privados. (Diário do Pará)