domingo, outubro 09, 2016

Em áudios, Trump comenta traição a ex-mulher e indiscrições sexuais

Magnata entra em mais controvérsia com divulgação de conversas com apresentador, falando do corpo da filha e citando gosto por mulheres novas e até sexo grupal


WASHINGTON (O Globo) - Um dia após a campanha de Donald Trump sofrer um de seus baques mais fortes, com a divulgação de conversas obscenas dele se gabando de poder "beijar", "apalpar" e "transar com" mulheres por ser uma estrela do show business, a CNN investigou áudios antigos dele em conversas com o apresentador de rádio Howard Stern, nas quais ele fala abertamente sobre suas traições, o físico da filha Ivanka, sexo em ciclos menstruais e a três e sobre deixar um relacionamento depois que uma mulher passa dos 35 anos.

Nas conversas, resgatadas pela rede de TV das várias participações no programa de Stern durante anos, destacam-se declarações nunca antes registradas.

Em conversas públicas de 2004 e 2006, Stern diz que Ivanka é "gostosa" (piece of ass), afirmação à qual Trump concorda. Quando Stern menciona que ela parece "mais voluptuosa", Trump diz que ela não tem implantes nos seios.

— Ela sempre foi muito voluptuosa. É alta, uma beleza impressionante.
Trump também se mostra interessado em mulheres mais novas. Em 2002, diz a Stern que "30 é a idade perfeita".

— Até ela chegar aos 35 anos — interpela Stern.

— O que são os 35? A hora de ir embora — Trump faz piada, insinuando que é hora de abandonar a relação.

Trump faz ainda referência ao sexo no ciclo menstrual de suas parceiras.
— Você não faria isso, estou certo? — questiona Stern.

— Bom, eu estive lá, Howard. Todos estivemos. Às vezes vem por engano — conta.
Trump também conta, sem discrição, que perdeu a virgindade aos 14 anos com uma mulher mais velha. Em 2008, quando questionado se teve relações sexuais em grupo, diz que sim, alegando que fez sexo com três mulheres com o peso somado de 170 kg (menos de 60 kg, cada).

— Acho que as pessoas gostam muito de sexo. Gente como você e eu. Tiger — brinca com Stern, assim que o apresentador pergunta se ele acredita no vício em sexo do golfista Tiger Woods.

Em outras falas, os dois dão nota a modelos de acordo com a beleza delas. Trump ainda reconta, rindo, que tem "abertura para ver as modelos trocando de roupa no Miss Universo no camarim por ser o dono da franquia". Stern ainda deixa Trump surpreso quando diz que é fiel em seu casamento, em 1993.


Uma das principais linhas de ataque de Trump a Hillary Clinton, na vida pessoal da democrata, é o fato de que ela teria "sido uma facilitadora" das traições do ex-presidente Bill Clinton. O magnata foi casado com Ivana e com Marla Maples antes de unir a Melania.

EM APUROS

Trump descartou a possibilidade de abandonar a corrida presidencial após ser duramente criticado por correligionários após declarações de tom sexual em linguagem vulgar que vieram à tona quando um áudio gravado em 2005 foi vazado pelo "Washington Post".

"Nunca, jamais, me dou por vencido", disse Trump ao jornal americano, em resposta a pedidos de integrantes do próprio Partido Republicano para que abandone a campanha. Depois, em um tuíte, disse que "a mídia e o sistema me querem fora da corrida com muita força, mas nunca abandonarei a campanha".

Já repleto de histórias controversas envolvendo modelos, o magnata se gaba, em linguagem vulgar, de beijar, apalpar e tentar fazer sexo com mulheres, mesmo casadas, no áudio. Rapidamente, o vazamento gerou uma onda de críticas ao candidato.

Quatro senadores republicanos anunciaram formalmente que não votarão no magnata depois do escândalo. O principal deles é John McCain, ex-candidato presidencial e que já se viu em confusão com Trump após o magnata não considerá-lo um herói de guerra (McCain foi feito prisioneiro no Vietnã).

"Pensei que fosse importante respeitar o fato de Trump ter vencido a maioria dos delegados pelas regras do partido. Mas seu comportamento nesta semana, incluindo seus comentários depreciativos sobre mulheres e seu alarde sobre agressões sexuais, tornam impossível até dar apoio condicional a sua campanha", condenou. "Escreverei na cédula o nome de um bom republicano conservador que seja qualificado para ser presidente."

O ex-senador Mike Kirk pediu para o partido substitui-lo. O ex-governador do Utah e ex-embaixador Jon Huntsman, disse que "chegou a hora de (Mike) Pence liderar a chapa", pedindo que o candidato a vice do magnata assuma a função no lugar dele. Huntsman defendera o voto em Trump uma semana antes. Até o senador Ted Cruz, que recentemente deu apoio a Trump após ser derrotado por ele nas primárias republicanas, foi duro. "Estes comentários são perturbadores e inapropriados, e não há desculpa para eles. Toda mulher, mãe, filha - toda pessoa - deve ser tratada com dignidade e respeito", disse em nota.

Sua ex-rival na disputa Carly Fiorina pediu que ele se retirasse da corrida. Nunca um grande partido americano substituiu seu candidato presidencial tão perto das eleições.

A direção de seu partido também fez críticas após a divulgação do áudio. "Nenhuma mulher deve ser descrita nestes termos ou ser alvo de comentários desta maneira. Nunca", criticou duramente o presidente do Comitê Nacional Republicano, Reince Priebus.

O presidente da Câmara dos Representantes, Paul Ryan, disse que Trump objetificou as mulheres e, em resposta, decidiu abandonar um evento de campanha do candidato no Wisconsin, no sábado. O ex-candidato presidencial Mitt Romney atacou: "Dar em cima de mulheres casadas? Minimizar agressão? Essas degradações vis diminuem nossas mulheres e filhas e corrompem a imagem dos EUA para o mundo", criticou pelo Twitter.
O vice de Trump, Mike Pence, emitiu um comunicado sobre o caso:

"Como marido e pai, eu fiquei ofendido pelas palavras e ações descritas por Donald Trump no vídeo de onze anos atrás divulgado ontem. Eu não desculpo seus comentários e não posso defendê-los. Eu sou grato que ele expressou remorso e se desculpou ao povo americano", disse o republicano.

A mulher de Trump, Melania, disse que se sentiu ofendida pelos comentários "inaceitáveis e ofensivos", mas pediu que os eleitores aceitem as desculpas.

"Isto não representa o homem que conheço. Ele tem o coração e a mente de um líder. Espero que aceitem a desculpa dele, como eu aceitei, e foquem em temas importantes que dizem respeito a nossa nação e ao mundo", afirmou em comunicado.

Em uma tentativa de controlar os danos provocados pelo vazamento, Trump gravou uma mensagem de desculpas por vídeo, que foi divulgada pelas redes sociais. Ele argumentou que não é uma pessoa perfeita e o áudio, que já tem mais de dez anos, não reflete a pessoa que ele é.
— Eu estava errado e peço desculpas — disse o magnata, que divulgou a mensagem de arrependimento em um vídeo. — Nunca disse que era perfeito, nem pretendo ser uma pessoa diferente de quem eu sou. Me comprometo a ser um homem melhor amanhã, e não decepcioná-los jamais.

O candidato à Presidência dos EUA classificou a polêmica de distração eleitoral, uma vez que provocou uma onda de críticas na reta final da longa corrida à Casa Branca. Durante sua campanha, no entanto, ele se envolveu em uma série de polêmicas, em que foi acusado de xenofobia, machismo e racismo.

"Estas palavras são depreciativas. Este comportamento é um abuso de poder. Não é libidinoso. É abuso sexual", disse em nota o vice-presidente Joe Biden.