quinta-feira, fevereiro 11, 2016

Há 60 anos, revoltas de Jacareacanga e Aragarças contra JK ameaçaram a democracia

Texto: (O Globo) - Paulo Luiz Carneiro 
Fotos: Histatual.blogspot

Veloso conduzido preso para Itaituba
Em pleno carnaval de 1956, logo após a posse de Juscelino Kubitschek, que ocorreu no dia 31 de janeiro de 1956, aconteceu a rebelião militar de Jacareacanga. Entre 10 e 29 de fevereiro, membros da Aeronáutica, liderados pelo major Haroldo Veloso e pelo Capitão José Lameirão, mantiveram sob seu controle a base aérea de Jacareacanga, no Sul do Pará e, por alguns dias, a cidade de Santarém e três pequenos povoados próximos.

Veloso e Lameirão
A revolta, na sua origem, está ligada ao movimento de novembro do ano anterior, liderado pelo Ministro da Guerra Marechal Henrique Lott, que garantiu a posse do presidente Juscelino Kubitschek e do vice João Goulart, eleitos no pleito de outubro. Os militares derrotados, principalmente a oficialidade da Aeronáutica e da Marinha, viam o governo de Juscelino e de João Goulart como uma volta ao getulismo e uma ligação com os comunistas.

C-47 2059, momentos antes de sua partida de Santarém para Jacareacanga
No dia 10 de fevereiro, Veloso e Lameirão sequestraram um avião da FAB carregado de armas e explosivos e partiram em direção à base de Jacareacanga. As primeiras notícias no GLOBO são da Quarta-feira de Cinzas, dia 15 de fevereiro, pois nesta época o jornal não circulava durante o carnaval.

Segundo o “Dicionário Histórico-biográfico Brasileiro” (CPDoc-FGV), o “objetivo de Veloso, principal líder da revolta e profundo conhecedor da Amazônia, era controlar pontos estratégicos do interior do Brasil e, desse modo, forçar um ataque de tropas lideradas por oficiais fiéis a Kubitschek. Essa reação, segundo os cálculos de Veloso, deveria levar os militares que se opunham ao presidente a pegar em armas contra o governo. Um elemento essencial para o êxito do plano era a tomada de Santarém”.

O GLOBO fez a cobertura da rebelião de forma intensa. Diariamente saíam notícias dos acontecimentos em suas páginas, como em 20 de fevereiro, quando do embarque de tropas para debelar o conflito: “a reportagem de O GLOBO foi a única a fazer a cobertura geral do embarque, colhendo aspectos que constituem furos fotográficos”. Também foram enviados a Belém os repórteres Mauro Sales, Gustavo Silveira e o fotógrafo José Camilo.
Silveira e Camilo partiram com as tropas para Santarém e a base de Jacareacanga, onde testemunharam as batalhas entre os rebeldes e as tropas legalistas. No dia 1º de março, O GLOBO publicou: “reportagem fotográfica do choque entre as forças governistas e os rebeldes”, noticia a captura do major Veloso e o fuzilamento do ‘capitão’ Cazuza, lugar-tenente do líder revoltoso.

Lameirão e outros oficiais fugiram para a Bolívia, onde obtiveram asilo. Veloso foi enviado para a prisão no Rio de Janeiro. No dia 6 de março de 1956, preocupado com a governabilidade, Kubitschek concedeu anistia a todos os participantes dos movimentos de novembro de 1955 e de Jacareacanga.

Haroldo Veloso viria ainda a participar da Revolta de Aragarças, em Goiás, em 2 de dezembro de 1959, mas começou a ser planejada em 1957. O estopim foi a suspeita de conspiração de esquerda, que estaria sendo liderada por Leonel Brizola, e uma suposta renúncia de Jânio Quadros como candidato às eleições de 1960. A rebelião durou apenas 36 horas.

Veloso morreu em 1969. Era deputado federal pela Arena do Pará e brigadeiro da Aeronáutica. Lameirão foi reformado no posto de major-aviador em 1961 e faleceu em julho de 1975.