quinta-feira, dezembro 24, 2015

Passageiros da agonia

              *Valho-me do título de um filme que fez muito sucesso no Brasil em 1977, intitulado Lúcio Flávio, O Passageiro da Agonia, que conta a história real de Lúcio Flávio Lírio, que ficou famoso na década de 1970 por seus grandes assaltos a bancos e repetitivas fugas da polícia. Mas, do filme só farei uso do título, porque a violência da qual pretendo tratar aqui neste artigo tem outros parâmetros, alguns deles bem mais perversos do que Lúcio Flávio usava.
            O ano de 2015 está terminando. Já não se tratam mais de dias, mas, de horas para a chegada de 2016. E nós, brasileiros, talvez nem gostaríamos que houvesse a virada de ano, pois em vez dos augúrios de um Próspero Ano Novo, o que temos são vaticínios de um ano ruim, talvez pior do que este que está terminando, uma vez que o fundo do poço da crise econômica ainda é mais embaixo, como dizem os especialistas no assunto.
            Em Brasília a presidente Dilma Rousseff está colhendo o que plantou. Cada vez mais só, chegando a índices de popularidade que ameaçam bater os do ex-presidente Fernando Collor de Melo, corre o sério risco de ter que deixar o Palácio do Planalto pela porta dos fundos. Sua falta de habilidade política, sua arrogância no trato com a classe política, juntamente com sua desastrada política econômica e as mentiras contadas para a população do país a esse respeito, antes e durante a campanha fizeram despencar sua popularidade, que chegou a ser muito alta.
            Dez graus de latitude ao norte de Brasília, em um reino chamado Itaituba, outra mulher encerra o ano um pouco mais tranquila do que Dilma, por enquanto, mas, nem por isso em condições de afirmar que está de bem com a vida e, acima de tudo, de bem com seus súditos, pois Eliene Nunes tem enfrentado muitos percalços no decorrer desses doze meses de 2015. No auge de seu inferno astral, conviveu com uma CPI que não foi montada com a finalidade de tirá-la do cargo, mas, para mostrar alguma força de um grupo de vereadores descontes, CPI essa que aliás, terminou desacreditada porque os edis que a tocaram deixaram de fazer as coisas direito.
            Assim como Dilma, Eliene esbanja falta de talento quando o assunto é política, pois durante 2015 ela conseguiu a façanha de sair de uma base de apoio de doze vereadores na Câmara Municipal para apenas oito. Isso, depois da malograda CPI, pois antes e durante a mesma, a prefeita chegou a ter minoria.
            Conversei com alguns vereadores que ainda continuam na base do governo, que pediram que seus nomes não fossem revelados porque temem retaliações da gestora. Eles chegaram a me dizer que não estavam mais subindo à tribuna para defender a administração municipal porque não tem mais argumentos. Queixaram-se eles da falta de atenção de Eliene para com eles, pois até um simples telefonema ela reluta em atender.
            Eliene está fechando o ano de 2015 no vermelho, no que concerne à política. Ao longo dos três primeiros anos de mandato ela escorraçou todas as lideranças que a apoiaram na campanha. Até mesmo quem nunca havia manifestado interesse em disputar uma eleição, como é o caso do empresário Ivan D’Almeida, decidiu lançar-se na vida pública, por ter se decepcionado com o comportamento dela. Ivan foi um dos suportes financeiros da campanha da prefeita em 2012. No campo das finanças, a situação da prefeitura é muito ruim, e está piorando por causa da crise econômica.
            A prefeita fecha os três primeiros anos de seu mandato sem ter conseguido cooptar um só político de peso para o seu lado, para tentar contrabalançar as inúmeras perdas que teve. E não parece fácil ela levar alguém com expressão no ano que está chegando, porque as previsões para 2016 para os prefeitos são ainda mais sombrias, falando-se que o fundo do poço da economia ainda está por vir e que a recessão poderá se estender pelo menos até 2017. Mesmo porque, quase todos os atores políticos já escolheram de que lado estarão na próxima eleição municipal.
            Somos passageiros da agonia, de um trem desgovernado, no qual a comandante da locomotiva, Dilma, não faz hoje a menor ideia sobre onde vai parar. No vagão Itaituba, a responsável, Eliene, termina o ano num tremendo aperto para tentar manter a folha em dia, sem boas perspectivas para o ano que está chegando. E por tudo que nos tem sido mostrado e provado no cenário econômico e no cenário político, tanto lá quanto cá, esse trem corre o risco de sair dos trilhos. O resultado final do estrago, só esperando para ver. (Editor Responsável do Jornal do Comércio)

*Artigo publicado na edição 208, do Jornal do Comércio, circulando.