terça-feira, dezembro 01, 2015

Está faltando esperança

*Marilene Parente

Desde que me entendo por gente ouço: as crianças representam a esperança de um futuro melhor. Os adultos, geração após geração parece que perderam a crença em que eles próprios poderiam mudar o Brasil. Aí, transferem a responsabilidade para os filhos, como se eles fossem ungidos com a missão de consertar o que está errado há séculos.
            Abraham Lincoln, considerado o maior presidente norte-americano da história disse: pegue um homem, tire-lhes os sonhos e veja o que resta. Sábias palavras, porque a derradeira coisa que podem tirar da gente são os sonhos. Sonhar significa ter esperança. E na correnteza desse raciocínio eu me lembro da música interpretada por João Nogueira, grande sambista, a qual tem um trecho que diz: está faltando esperança (no Brasil).
            Conheço muita gente que diz que já não tem mais esperança de ver um Brasil diferente, com menos violência, com mais justiça social e com políticos íntegros. Isso parece um sonho inatingível que nossos avós, nossos pais e nós mesmos temos sonhado. Todavia, em vez de ver esse sonho realizado, o que temos é um pesadelo que parece eterno.
            Como é que podemos esperar que essas crianças que alegram os nossos lares nos dias de hoje, venham a concretizar essa esperança, se a sociedade brasileira de um modo geral não esboça nenhuma reação? De que forma esses futuros adultos poderão implementar as mudanças de rumo, se o que eles vivenciam no dia a dia é o mau exemplo do “jeitinho brasileiro”, da corrupção desenfreada, da permissividade para com o que é errado? Quem souber a resposta, por favor, me diga qual é.
            Os políticos desta geração, esses que estão aí de plantão, resolveram criar leis para ensinar os pais a educar, a criar os seus filhos, enquanto que eles é que deveriam ter uma mudança de atitude, passando a dar bons exemplos para nossas crianças e adolescentes. No dia em que o Brasil tiver governantes que não metam a mão no dinheiro público, na hora em que a gente puder olhar para quem a gente elege com a convicção de que são pessoas de bem, preocupadas com o bem comum, poderemos deixar nossas crianças assistirem aos telejornais, ouvir as notícias do rádio ou ler jornal ou qualquer outro veículo informativo da internet.
            Um dia desses, meu filho, que tem apenas sete anos de idade perguntou-me: mamãe, por que, quando a senhora ou o papai assiste aos noticiários da TV, só passa coisa violenta, ou então fala desses políticos ladrões? Confesso que fiquei um pouco engasgada com a pergunta e, antes de responder refleti: será que é esse país que eu vou deixar para o meu filho? Será que minha geração não tem competência para deixar nada melhor? E, sem alternativa, falei o que acho que tem que ser falado, a verdade, procurando as palavras certas para a ocasião, para evitar causar maiores estragos em alguém que não tem noção exata dessa podridão.
            É grande o número de crianças que crescem convivendo com pais que mandam fazer gato para pagar menos na conta de energia, pais que não hesitam em tentar subornar quando são flagrados fazendo algo ilegal. Ora, que belo exemplo esses pais dão aos filhos, que quando crescerem acharão normal fazer o mesmo. São esses adultos, os mesmos que protestam contra o governo, contra o legislativo ou o judiciário, quando algum agente público desses poderes é flagrado em atos corruptos, que ensinam os filhos a fazerem o que é errado.
            Como diz um velho ditado chinês que todos conhecem, uma imagem vale mais do que mil palavras. O que vai ficar gravado para sempre na cabeça dos nossos filhos são os nossos exemplos, as imagens do que fazemos no dia a dia, não as nossas palavras. O tal do faça o que eu digo, mas, não faça o que eu faço, talvez tenha alguma utilidade na relação hierárquica na caserna ou no trabalho, nunca na relação familiar. Por isso, não permitamos que morra, nem nos nossos corações, muito menos nos corações das nossas crianças, a esperança de um mundo melhor, que é um artigo que vai aos poucos desaparecendo no Brasil.

*Bacharel em Direito pela Universidade do Grande ABC, Santo André, SP

Artigo publicado na edição 207 do Jornal do Comércio