segunda-feira, novembro 09, 2015

Notícia é movimento: do jogral medieval à diferença ou contradição com o

"A maioria das ideias fundamentais da ciência é essencialmente simples, e pode, como regra, ser expressa numa linguagem compreensível a todos (A. Einstein).
Pensar o jornalismo: Texto aberto à crítica e à contribuição de jornalistas, pesquisadores e de qualquer leitor interessado no assunto. Agradeço a primeira contribuição, da jornalista Socorro Veloso, pós-doutoranda na Universidade Nova de Lisboa, pelo enriquecimento deste esboço.

Por Manuel Dutra

O preocupante é a “facilidade” do encontro de fontes à distância, assim reduzindo ou eliminando um dos momentos mais instigantes da reportagem que é o contato direto repórter-fonte, contato humano indispensável ao testemunho presencial do acontecimento.

ntrodução

Quando Carlos Rizzini utilizou a expressão “informação em movimento”, o meio de comunicação eletrônica do momento era o rádio; a televisão dava os primeiros passos no mundo e, no Brasil, sequer ela ainda existia. Ao criar esse conceito, ele se referia ao “prenúncio do periodismo” contemporâneo que, na sua análise, começava a nascer pelos jograis medievais e pela miríade de grupos que perambulavam pelos castelos feudais e, pouco mais tarde, pelos ajuntamentos que viriam a formar a vida urbana moderna, levando a música, as histórias e que, a partir de certo momento, levavam também a informação que iam coletando pelo caminho.

Autor: jornalista e professor Manuel Dutra, em seu blog

Posto esse ótimo artigo do grande jornalista Manuel Dutra, como sugestão de leitura para todos os colegas de profissão da nossa região. Vale a pena ler.

Jota Parente
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Diz Rizzini (1946, p. 18) que “peregrinando por vilas e castelos, os jograis, ao lado do lirismo das baladas e pastorelas, dos lais e cantigas de amor e de amigo ... cantavam e recitavam gestas, que eram a história popular do tempo, e contos facetos e satíricos, inspirados em discórdias e agitações, verdadeiras gazetas rimadas”.

Cita Menéndez Pidal (p. 18), quando este autor afirma que “as viagens e as grandes reuniões de jograis cumpriam na Idade Média a função de divulgar a música e a literatura em países muito diversos, substituindo, de certo modo, os meios modernos de que dispõe a imprensa”.

Na opinião de ambos teria sido esse o momento histórico em que surgia o embrião do que, séculos mais tarde, viria a ser a chamada mídia contemporânea. Dessa forma, discordam de que os precursores da imprensa teriam sido os Acta Diurna Populi Romani, de vez que estes, mesmo na fase em que se abriram para noticiar não apenas os atos do governo romano, eram publicados em espécies de tábuas afixadas em muros, com a informação paralisada, à espera de leitores. Alguns destes, em certo momento, copiavam dos Acta textos manuscritos que lhes interessavam levar a outros ambientes, denotando dessa forma o fato de que a informação, mesmo quando imobilizada num mural, implica movimento que se pode identificar em dois momentos: 1) no ato de sua captura, pela observação dos fatos ou pelo desejo de tornar público o que é privado ou de obter adesão do leitor, e, 2) na necessidade humana do compartilhamento, ou seja, na oferta da informação capaz de ser útil e necessária a outrem, pelo processo da circulação/consumo.

Um dos itens de pauta – se assim se pode classificar – no período medieval, eram os escândalos da época, algo que em nada difere do mundo contemporâneo. Os jograis condimentavam as suas “notícias” com a maledicência e a crítica, transmitindo mais versões e opiniões do que fatos (Rizzini, 1946, p. 22). Eram espécies de mercadores de novidades políticas “como verdadeiros jornalistas. Eles eram a imprensa”, como afirma Léon Gautier, citado por Rizzini (p. 22). Daí surgiu a repressão, e os jograis passaram a ser encarados mais como atores políticos do que como meros grupos inocentes de cantadores de trovas.

Foi nesse instante que, por exemplo, o rei Carlos VI, da França, emitiu ordenança, em 1395, proibindo os jograis e toda a fauna de cantadores e poetas ambulantes de cantarem ou declamarem qualquer texto que fizesse menção ao papa, “ao rei nosso senhor”, aos senhores de França, sob pena de ser o cantor ou poeta metido em prisão por dois meses a pão e água. Idêntica perseguição se fez na Inglaterra, onde “a ação política dos cantadores e músicos ambulantes exercitou-se com particular intensidade”, diz Rizzini. Assim como em Portugal e por toda a Europa.

Em resumo, percebe-se que a produção da informação tem a ver com o caminhar, o deambular, ir ao encontro dos fatos para relatá-los e/ou sobre eles opinar. A seguir, disseminá-los, sem o que não se completa o ciclo noticioso. Com o passar dos séculos, a introdução da eletricidade veio acelerar esse processo que, aos poucos, por imposição do avanço do capitalismo, foi deixando de lado a mera opinião e/ou a pregação política por aquilo que passou a se chamar notícia, sem a qual, se é possível o periodismo, é impossível o jornalismo. Se não há jornalismo sem periodismo, o contrário não é necessariamente verdadeiro.

A notícia

A palavra Notícia deriva do étimo indo-europeu gno, que significa “saber”. Mais tarde, em seu processo de sua expansão, os romanos se apropriaram dessas três letras e construíram outra palavra, noscere, retirando o “g” original, significando “vir a saber, tomar conhecimento, começar a conhecer”. No Latim os verbos são estudados por meio de seus tempos primitivos; assim,nosco, noscis, novi, notum, noscĕre (conheço, conheces, conheci, conhecido, conhecer). Depois houve a evolução para conoscere, que é a mãe da nossa palavra conhecer. É óbvio que naquele tempo ainda não havia jornalismo como mais tarde viria a ser entendido esse conceito. Era a tomada de conhecimento dos fatos em si, transmitidos oralmente ou por outros meios, sobretudo as cartas.

Nos tempos primitivos do verbo a forma novi é o pretérito perfeito, isto é, o passado = tomei conhecimento, percebi, passei a saber do que se trata. Com uma interessante particularidade: a forma novi não tem somente o sentido passado, mas também presente, isto é, uma vez que tomei conhecimento de algo, esse conhecimento permanece, torna-se atual, vivencial, na minha experiência e nas minhas formas de interpretação do mundo. “Como é verbo incoativo significa propriamente começar a conhecer, donde nosco [significa] eu começo a conhecer, reservando-se para [o tempo] novi o sentido de conheço, sei, conhecia, sabia” (Torrinha, 1942, p. 559).

Então, se formos esmiuçar a etimologia da palavra notícia, veremos que ela comporta os tempos passado e presente, indica um conhecimento adquirido que fica, não se esvai, acumula-se. 

A evolução do verbo noscĕre trouxe o particípio notum, isto é, aquilo que se tornou conhecido e assim permanece. Aí está a origem menos remota da palavra notícia.

O jornalista e estudioso brasileiro Nilson Lage (2005, p. 139) diz que notícia é a exposição de um fato ou sequência de fatos, portanto, de algo antes desconhecido do grande público, de algo relevante que não pode permanecer na obscuridade, interessa a todos ou a um grande grupo social e por isso tem que ser exposto publicamente. Vê-se aí a essência do texto da notícia = algo revelador e desvelador (que não deixa ficar escondido, dormindo).

Esse ponto de vista como que resume todas as teorias do bom jornalismo: revelação, exposição de algo importante, útil, interessante e necessário ao conhecimento público, pois o desconhecimento impede o crescimento de qualquer povo, de qualquer sociedade. Daí também a imensa responsabilidade do jornalista ao produzir a notícia.

No entanto, essa responsabilidade está, no mínimo, relativizada hoje (e não o foi também no passado próximo ou distante?), quando a imprensa nos impinge textos classificados como notícias e que, na realidade, não o são. Não poucas vezes lemos nos jornais ou assistimos nos telejornais a “notícias” que, na verdade, são publicidade ou textos de interesse de grupos de poder, conversas dissimuladas de notícias, mas que, analisadas, percebemos que se trata de estratégias de convencimento de pontos de vista e opiniões contrárias ao conceito de jornalístico como revelação e exposição pública de tudo que deve ser revelado e desvelado. 

Testemunho

Dessa forma, a notícia, enquanto relato/exposição de fatos sociais, é indissociável do movimento, trata-se de um processo, assim como são todos os objetos estudados no âmbito das ciências sociais.

Na prática produtiva do texto noticioso o movimento pode dar-se de diversas formas, privilegiando-se, obviamente, o testemunho do repórter. Nada como ir-lá, ver de perto, ouvir a voz dos atores sociais sem a mediação tecnológica, e até sentir o cheiro do ambiente, tal como ocorreu recentemente após o megadesastre no Porto de Vila do Conde, município de Barcarena, a 55 quilômetros de Belém, no Pará, quando quase 5 mil bois foram despejados no Rio Pará após o naufrágio do cargueiro libanês Haidar.

Impossibilitado esse estar-lá, há outras formas de movimentar-se, processo esse facilitado pelas tecnologias da informação e da comunicação, as TICs, desde que estas sejam utilizadas para chegar-se virtualmente o mais próximo possível das fontes primárias.

No passado medieval esse testemunho era, por assim dizer, casual; tratava-se da observação de fatos vistos ao longo das caminhadas entre castelos feudais e países distintos. O relato, muitas vezes fantasioso, era, em grande parte, produto da oralidade, de que os precursores do periodismo moderno lançavam mão, até porque a maioria deles se compunha de analfabetos, sendo poucos os letrados que produziam seus folhetins mais ou menos à maneira da literatura de cordel.

Hoje, o relato jornalístico é produto da racionalidade do mercado, sendo resultado de uma pauta, quando previstos os fatos, ou do esforço da presencialidade, no caso dos imprevistos. Em qualquer das situações, no entanto, é indispensável o movimento de captura e de apuração criteriosa, sem o que não se pode falar, a rigor, em notícia.

Estar-lá

Os fatos sociais se produzem necessariamente pelo movimento, fugacidade, velocidade, exigindo do repórter, no processo de sua captura e apuração, comportamento profissional capaz de acompanhar essas características, sob pena de contar o que outros viram e informaram com sua carga de subjetividade, que se somará à subjetividade inerente ao repórter, ensejando riscos ao relato supostamente referente à verdade possível dos fatos.

Mesmo quando um determinado fato se caracteriza por um objeto ou por um fato social que ainda está-lá, como no caso do navio Haidar, que ainda está, na data de hoje, emborcado no Porto de Vila do Conde, 30 dias após o naufrágio, e das centenas de famílias brutalmente retiradas de suas rotinas em decorrência da poluição das águas e das praias de onde retiram a sua sobrevivência, esse objeto aparentemente paralisado no tempo, estático, comporta elementos de movimento, de vez que o problema não foi resolvido, por isso mesmo exigindo a ação = movimento do repórter na cobertura continuada do acontecimento, cujas soluções dependem não da natureza agredida nem das famílias penalizadas, mas de decisões de “autoridades”, de empresários e de outros agentes sociais envolvidos.

É nesse aspecto que se identifica a grande diferença entre aquela noção de “informação em movimento”, de Carlos Rizzini, e a ação daquele que se vem chamando de “jornalista sentado”, termo tomado de empréstimo por diversos autores do âmbito da sociologia francesa, em contraponto à noção de um jornalista “em pé” (“journaliste assis” versus “journaliste debout”). Pode-se argumentar que a noção de movimento, tal como se lê em Rizzini, remete apenas à informação/notícia em si. Ocorre que o movimento aludido tem a ver com o repórter também, sem cuja ação não existirá a informação, pois este, o repórter, ao tomar conhecimento do fato noticiável e de, logo a seguir, testemunhá-lo, ou sobre o acontecimento socorrer-se de fontes secundárias confiáveis, esse repórter passa a envolver-se no processo mesmo do movimento do fato. Antes de produzir a notícia, ele se torna depositário privilegiado desse movimento, presenciado ou coberto à distância e, portanto, participante do mesmo processo gerador do fato em si. O movimento abrange todo o processo, incluindo o repórter. O movimento intrínseco ao acontecimento e à sua cobertura conjunta-se com o movimento posterior, no processo de circulação/consumo da notícia.

A contradição reside aparentemente no fato de que, embora o movimento aludido hoje disponha de instrumentos capazes de torná-lo ainda mais veloz e mesmo instantâneo, podendo inclusive dispensar a ida e o retorno físico do repórter à redação para reunião de pauta e preparo do texto, esses mesmos instrumentos eletrônicos parecem convidar ao comodismo e à economia de recursos que têm o potencial de levar à produção de um pseudo-jornalismo.

As tecnologias da informação e da comunicação estão aí, como realidade que ultrapassa a mera condição de “ferramentas”. Interferem no comportamento das pessoas e nas práticas produtivas, até porque não se faz jornalismo hoje sem elas. Ao contrário, o fazer jornalístico pode ser e é enriquecido pelas novas tecnologias, sobretudo no tocante ao movimento. Hoje, por exemplo, o repórter não necessitará mais dirigir-se fisicamente ao Tribunal Eleitoral a fim de coletar dados sobre as eleições do ano passado, rapidamente acessando bancos de dados que complementam e enriquecem o texto produzido. Poderá preparar uma pauta, seja para a reportagem mais simples ou para a chamada grande reportagem ou reportagem investigativa, com auxílio do computador, com riqueza de dados inimaginável há 20 anos.

O preocupante é a “facilidade” do encontro de fontes à distância, assim reduzindo ou eliminando um dos momentos mais instigantes da reportagem que é o contato direto repórter-fonte, contato humano indispensável ao testemunho presencial do acontecimento.

O outro e as fontes

Igor Waltz (2015), da UFRJ, citando Neveu (2006), em relatório de pesquisa apresentado sob o título “O jornalista sentado’ e condições de produção: considerações sobre práticas profissionais na comunicação em rede”, no 6º Ciberjor), afirma que o conceito de “jornalista sentado” se refere a “uma orientação profissional voltada mais ao tratamento e veiculação de conteúdos informativos produzidos por outros do que à inspeção própria de notícias e ao contato com as fontes...” (gripo nosso) (Pereira, 2004). Entre as questões que ficam, estão estes “outros” produtores de conteúdos dos quais se valem os jornalistas. No dia a dia percebe-se, notadamente nos telejornais, a participação de “outros” produtores não jornalistas que, com suas minicâmeras e gravadores de som, registram fatos e os oferecem aos editores. Aqui, outra questão: de que forma estão essas informações apuradas a ponto de se tornarem notícias? As pessoas que, de boa vontade ou com o mero intuito de participarem do espaço público midiático, acham-se preparadas para registrar e concluir o processo de apuração do fato por elas presenciado? Estas contribuições de espectadores/leitores prestam-se, de imediato, para serem transformadas em notícias ou poderiam, apenas, servir de sugestões pautas para a apuração profissional?

É essa orientação profissional, realçada no destaque do parágrafo anterior, que, se não se apresenta como cabal contradição, mostra-se muito diferente da noção de “informação em movimento”. Se não contraditória, evidencia-se como outra coisa com potencial de contradizer a noção de movimento, deteriorando aquelas características matriciais do que conhecemos como jornalismo: testemunho, contato humano, caminhar, deambular, relacionar-se com as fontes. Um exemplo:

Logo após o naufrágio do navio libanês Haidar, acontecimento já referido antes, o editor de um importante jornal de Belém, no Pará, foi informado do desastre por um repórter que, recebeu de seu chefe, a resposta: não há dinheiro para viagens. A “viagem” não ultrapassa 2 horas, de carro, com o naufrágio muito próximo da região metropolitana. Além disso, informou o editor, que “leitores” estavam passando imagens feitas com celulares e outras informações via textos por meio desses mesmos aparelhos.

A dimensão da tragédia ambiental/humana parece não ter sido percebida ou levada em conta, de imediato, e muito poderia ter sido feito, de vez que o cargueiro levou várias horas até emborcar de vez com cerca de 5 mil cabeças de gado em seus porões e 750 mil litros de óleo combustível pesado nos tanques. A carga começou logo a se espalhar, afetando larga faixa habitada, disseminando carcaças de animais pelas praias e óleo sobre o Rio Pará e redondezas. Só no dia seguinte os jornalistas conseguiram aproximar-se do ambiente do desastre, dando à sociedade as dimensões aproximadas da tragédia.

Os “outros” que produziram os conteúdos para o “jornalista sentado” não o fizeram, obviamente, a contento, de modo particular na cobertura de um acontecimento cujas dimensões em muito ultrapassavam as possibilidades de cobertura de um amador. Era tarefa para profissionais.

Em sua pesquisa, Igor Waltz (2015) entrevistou sete jornalistas entre 25 e 52 anos de idade, que analisam as novas tendências na produção do texto noticioso. Uma repórter do jornal O Dia, de 25 anos, graduada em 2012, entre outras coisas disse:

“Eu sinto bastante falta de ir à rua. Sempre que posso, procuro fugir um pouco. Uma pauta sobre tendências do Natal na Saara [região do comércio popular do Rio de Janeiro], por exemplo, é algo que eu não conseguiria se não fosse para a rua. Meu editor defende que o jornalismo precisa voltar às origens. O jornalista precisa flanar pela cidade em busca de pautas, e não ficar só dentro da redação, dependente da internet...”

Outra jornalista, que atua há mais de 35 anos como repórter no setor de Economia do jornal O Globo, também sublinha a crucialidade da rede de fontes: “Se depender de releases e notas oficiais, você como jornalista está morto”, argumenta a setorista. Ela, contudo, lamenta que hoje os jornalistas sejam cada vez mais dependentes das informações oficiais que lhe chegam por meio da caixa de entrada do seu e-mail.

A mesma jornalista acrescenta: “Acho que [as novas gerações] têm que ter mais cuidado, talvez como estão mais acostumados a apurar muita coisa pelo Google, eles deixam a essência do jornalismo, que é apurar a verdade. É o que eu te falo, é correndo atrás da notícia, procurando falar com os envolvidos, a verdadeira versão dos fatos...”

Um editor de O Dia salientou: “[Um ponto negativo das novas gerações] é que o texto piorou. A criatividade deu uma quedinha também. Acho que isso se deve à facilidade, né? Facilidade de obtenção de informação, porque a reprodução automática da informação é uma coisa que o jornalista jovem precisa tomar cuidado. Porque é fácil. Você tem a ilusão de que pode produzir muitas notícias, mas na verdade você está apenas reproduzindo...”

Uma repórter do Brasil Econômico disse: “Mas qual é o perfil novo do jornal? A participação maior dos leitores. O Globo e o G1, acho que são os principais. A Rádio Band, por exemplo, com o pessoal mandando informações do trânsito pelo Whatsapp, mas isso tem o problema, que é esbarrar na confiabilidade do jornal, porque muitas vezes, por falta de estrutura, [o jornalista] deixa de checar essas informações. E aí publica como verdade. Mas a participação do público é um caminho sem volta”. (Grifo do autor).

Respostas muito parecidas seriam, por hipótese, obtidas em muitas outras partes do Brasil e do mundo. Há, portanto, a necessidade de investigar se o aprisionamento do jornalista dentro a redação ou dentro de um cubículo de sua própria residência não é, efetivamente, causa de aprisionamento da informação que mais tarde, amanhã ou de imediato é posta em circulação sob a forma de notícia. Não existiria aí uma negação do conceito da notícia como movimento, produto do movimento do jornalista que, em vez de apenas sentado, deveria estar-lá, de pé, debout?

Flanar com a câmera à mão

O flanar, de que fala uma das jornalistas entrevistadas por Waltz, foi e continua a ser hábito muito frequente do autor deste artigo. Caminhar ou ir de carro a um lugar indeterminado num final de tarde de sábado, andar por entre tabuleiros de uma feira livre, conversar com pessoas na rua, telefonar a um político ou outra fonte potencial sem um assunto definido, por exemplo, foram atitudes que me renderam incontáveis pautas, muitas delas gerando reportagens que repercutiram, fossem graves denúncias ou simplesmente matérias de interesse geral sobre temas variados. Ainda hoje me desloco com minhas câmeras (com medo exibi-las e ser roubado, o que era menos frequente em anos passados).

Desde muito tenho como princípio que, de uma boa foto pode-se chegar a uma boa reportagem. E isso fiz inúmeras vezes, sempre com o cuidado de não dissociar a imagem do escritural. É o que chamo hoje, a título de diversão com esse hábito, de “jornalismo en passant” ou simplesmente “jornalismo de passagem”, dada a minha condição de professor que está há vários anos fora das redações. Qualquer deslocamento, a passeio ou em serviço, será sempre ocasião de capturar imagens e, de passagem, capturar informações outras, com possibilidade de se transformarem em matérias no meu blog.

A respeito da foto, enquanto conjunto significante, ela não é mera “ilustração” do texto escritural, mas é parte constituinte do conjunto informativo. Daí que, hoje, mesmo em sites jornalísticos respeitáveis, com muita frequência a foto está sendo utilizada de modo inadequado ou abusivo, dentro do princípio contemporâneo de que toda matéria “tem” que ser acompanhada de uma imagem, não importando se a foto tem a ver com o momento ou o fato noticiado ou se se trata de arquivo facilmente acumulado nos arquivos do computador ou pescado nos milhões de imagens disponíveis na internet.

A foto jornalística é informação, portanto é notícia sozinha e quando acompanhada de uma legenda ou de um legendão. Aprisionada nos computadores e na web, pode tornar-se peça de desinformação, quando existe a desconexão entre imagem e texto, como se vê com frequência. A quintessência dessa ausência de movimento da informação pode-se verificar quando – como ocorreu com um jornal de Belém – uma foto é retirada do interminável arquivo da internet. Neste caso específico, a foto era de um hospital de Honduras, porém o texto escritural dizia tratar-se de uma imagem mostrando as precariedades de um pronto-socorro da capital paraense. 

Considerações finais

Justamente no momento histórico em que as tecnologias da informação e da comunicação tornam possível a prática de um jornalismo instantâneo, por isso mesmo parece contraditório que se estabeleça a discussão sobre o que se está chamando de jornalista ou jornalismo “sentado”, diferente, senão abertamente dissonante com os fluxos extremamente velozes da informação.

A questão, no entanto, não é o debate, é o objeto posto em causa. A própria velocidade com que essas tecnologias se transmutam impede, neste momento, que se chegue a algo que se possa definir como conclusivo. Há dez anos, solicitado a fazer uma “análise sobre a internet”, em palestra na Faculdade de Comunicação da UFPA, o teórico da semiose social, Eliseo Verón, mais ou menos assim respondeu ao requerente: “desculpe, ainda não fiz essa análise pois, neste momento, percebo a impossibilidade de estudar um objeto que acaba de instalar-se e que se mostra extremamente veloz nas suas mutações”.

Mesmo assim, anos mais tarde, Verón, falecido em abril de 2014, ofereceu interessantes reflexões sobre a internet, destacando-se as noções de redes sociais, como o fez em 2012, em João Pessoa-PB, em palestra durante o Pentálogo, encontro anual do Centro Internacional de Semiótica e Comunicação (Ciseco), do qual era presidente de honra. Em 2013, ao comentar o lançamento de sua monumental obra “La semiosis social 2: ideas, momentos, interpretantes”, em entrevista a Anaiara Ventura (2013), a entrevistadora fez a seguinte pergunta, recebendo a seguinte resposta: 

Pergunta - Que tipos de ângulos aparecem nesta nova obra e que poderiam contribuir para a compreensão teórica e metodológica dos emergentes fenômenos da midiatização, como a internet gerando as redes sociais e o papel destas na organização dos novos fenômenos de ruas que se sucedem no mundo, como é o caso particularmente do Brasil?

Resposta - Estos fenómenos a los que usted alude son muy recientes como para tener una clara teorización en mi libro; he hablado de ellos en mis columnas regulares en el diario Perfil de Argentina. En cuanto al libro, hay dos capítulos de la tercera parte focalizados en el cuerpo como operador de apropiación de los espacios públicos (aunque no se trata de la calle) que tal vez pueden servir como materia para una discusión (que debemos realizar en un futuro inmediato) sobre la articulación entre el espacio virtual de la Red y los espacios materiales de las grandes ciudades del mundo.

Em meu livro, “A natureza da mídia: o discurso da TV sobre a Amazônia, a biodiversidade, os povos da floresta” (Dutra, 2009), abordo a questão da dificuldade do registro do objeto posto sob análise. Cito Viallon (1996, p. 53) quando este autor expõe sobre aquela dificuldade, relativa à televisão que, diferentemente da Retórica, “não tem séculos de história, de construção epistemológica, de aquisições transmitidas de geração em geração...”

Nessa condição, com muito mais exigência, situam-se as tecnologias da informação e da comunicação, recentíssimas e em veloz mutação. Daí, a dificuldade de qualquer análise a seu respeito.

Mesmo assim, cumpre perceber que elas são, já, uma realidade que aí está, e como tal devem ser encaradas, pois já criaram novos ambientes e novas formas de sociabilidade e, para nós jornalistas, novas formas de comportamento profissional.

Referências

DUTRA, Manuel Sena. A natureza da mídia: os discursos da TV sobre a Amazônia, a biodiversidade, os povos da floresta. São Paulo: Annablume, 2009.

GAUTIER, Léon. Les épopées françaises. 5 vls. Paris, 1878.

LAGE, Nilson. Teoria e técnica do texto jornalístico. Rio de Janeiro: Elsevier, 2005.
NEVEU, Erick. Sociologia do jornalismo. São Paulo: Loyola, 2006.

PEREIRA, Fábio Henrique. “O ‘Jornalista Sentado’ e a Produção da notícia on-line no Correio Web”. Em: Em Questão. Porto Alegre: UFRGS, v. 10, n. 1, p. 95-108, jan/jun. 2004. Disponível em http://seer.ufrgs.br/index.php/EmQuestao/article/view/85. Acesso em 28 jun. 2014.

PIDAL, Menéndez. Poesia Juglaresca e juglares. Buenos Aires, 1942.

RIZZINI, Carlos. O livro, o jornal e a tipografia no Brasil, 1500-1822: com um breve estudo geral sobre a informação. Ed. Do fac-similar 1946. São Paulo: Imprensa Oficial do Estado, 1988.

TORRINHA, Francisco. Dicionário Latino Português. Porto, 1942.

WALTZ Igor. O “jornalista sentado” e condições de produção: Considerações sobre práticas profissionais na comunicação em rede. 6º. Simpósio Internacional de Ciberjornalismo. Campo Grande, MS, 2015, Acesso em: 02.11.2015.

VERÓN, Eliseo. Eliseo Verón: o que se passou e se desenvolveu entre “La semiosis social” 1 e 2. Acessível aqui: http://ciseco.org.br/index.php/noticias/176-semiosis1e2

VIALLON, Philippe. L’Analyse du discours de la télévision. Paris: Presses Universitaires de France, 1996.