segunda-feira, outubro 19, 2015

Os sonhadores e os oportunistas

             Os mais otimistas achavam que quando os empreendedores de Mato Grosso chegassem a Itaituba para construir seus portos em Miritituba, isso aqui iria se transformar em terra onde correria leite e mel. Acreditavam que tinham um bom coração, e por isso iriam gastar seu rico dinheiro para mudar o cenário da sede do município, mas, principalmente do distrito aonde iriam se instalar. Sabem de nada essas pessoas, como diz aquela propaganda onde aparece o Compadre Washington.
            Há aqueles, tanto daqui, quanto de Mato Grosso, que fazem parte da minoria que tem dinheiro, que nunca gastaram tempo algum pensando em benefícios para o município, pois estiveram sempre muito ocupados em tratar de tirar proveito para eles mesmos, comprando terrenos baratos para vendê-los por um preço multiplicado por algumas vezes. Também existem alguns que tem pouca grana, mas, que farejam uma oportunidade de intermediar um bom negócio através do qual auferem bons dividendos financeiros.
            Houve até quem achasse que Itaituba seria a nova Lucas do Rio Verde, que tem um Índice de Desenvolvimento Humano de 0,710, enquanto o daqui é de 0,640. Os donos ou chefões das empresas não iriam querer viver em um lugar sem saneamento básico, com um uma infraestrutura precária, de um modo geral. Enfim, uma terra com muita coisa para ser feita para que ofereça uma qualidade de vida melhor para os seus habitantes.
            Esqueceram-se que os donos ou os chefões não virão para cá, a não ser em viagens de negócios. Logo, vão continuar vivendo em cidades com um padrão de vida bem mais elevado. Daqui eles querem os lucros que o encurtamento da distância para transportar sua soja para os mercados norte-americano, europeu e asiático proporciona. Nada mais do que isso.
            Nós, em Itaituba, lamentavelmente, mantemos uma característica comum dos tempos do auge do ciclo do ouro e plenamente compreensível para aquele período: quase todo mundo vinha para com o objetivo muito bem definido de ganhar o máximo de dinheiro que pudesse, no menor tempo possível, para depois retornar ao seu lugar de origem para usufruir a riqueza conquistada. O tempo passou, já se passaram duas décadas em que houve o declínio na produção de ouro, do ouro de aluvião, mas, a mentalidade ainda persiste. O individual está sempre acima do coletivo, E enquanto isso perdurar, enquanto a sociedade não tiver consciência de que, se lutar unida será capaz de mudar a vida de todos para melhor, vai prevalecer esse estado de coisas.
            O progresso está passando; ele passa nas centenas de carretas que chegam do Mato Grosso; ele desce pelo rio Tapajós rumo à foz do Amazonas. Itaituba, via Miritituba é apenas uma escala para mudar o modo do transporte. Saem de ação as carretas; entram em atividade as barcaças. Já o desenvolvimento, esse fica lá no Mato Grosso, em Sinop, em Sorriso, em Lucas do Rio Verde e em toda aquela região do norte mato-grossense que produz soja em larga escala.
            Semana passada esteve em Itaituba o jornalista gaúcho Flávio Ilha, que trabalha para o UOL e vive em Porto Alegre. Ele já trabalhou em outros grandes veículos nacionais, como O Globo, Folha, e outros, do sistema RBS. Ele me disse que ficou impressionado com o número de veículos da marca Toyota, modelo Hilux, na cidade. Perguntou-me o porquê de tanto desses carros circulando por aqui, grande número deles com placas de Mato Grosso. Eu falei que é efeito dos portos graneleiros que se instalam no município.
Flávio quis saber como andam as contrapartidas. Respondi que infelizmente até agora foram poucas, embora tenham sido muito festejadas pelo governo municipal como se fossem de grande vulto. Flávio, que veio preparar uma série de matérias que vão ser publicadas pelo UOL, chegou à mesma conclusão das pessoas daqui, as quais vem chamando atenção para a necessidade de o município reivindicar o que lhe é de direito: que a cidade, mas, principalmente o distrito de Miritituba, já deveriam ter-se beneficiado muito mais desse processo.
Para os que defendem a implantação desses projetos a qualquer preço, o aumento desordenado do número de habitantes de Miritituba, o crescimento preocupante da prostituição infanto-juvenil, o tráfego de carretas pelo centro urbano do distrito, contrariando promessa da ATAP de que não existiria, tudo isso é progresso. Quem crítica é retrógrado, ou ambientalista que não tem o que fazer. Eu prefiro chamar isso de efeito rolo compressor do capital, que não tem escrúpulo, nem constrangimento de passar por cima de quem se coloque no seu caminho. E isso é só o começo.

Jota Parente (Publicado na edição 205 do Jornal do Comércio)