terça-feira, outubro 13, 2015

Eduardo Cunha e a imagem do monopólio midiático

(*) Samuel Lima

Tido e havido como um dos protagonistas principais da crise política, cujo território por excelência é o Congresso Nacional, e um dos líderes da bancada evangélica no parlamento brasileiro, o deputado federal Eduardo Cunha (PMDB-RJ) passou, definitivamente, de estilingue a vidraça. No dia 1º de outubro, a Procuradoria-Geral da República (PGR) confirmou que recebera, na véspera, uma investigação do Ministério Público suíço constatando a existência de cerca de US$ 5 milhões em quatro contas de Cunha e familiares.

A PGR confirmou ainda que a Suíça congelou esse montante em ativos, porém o nome do banco não foi revelado. Uma auditoria interna dessa instituição financeira revelou essa “pequena fortuna” de Cunha e família, e sugeriu abertura de ação criminal naquele país por suspeita de lavagem de dinheiro. Convém lembrar que, em março, o parlamentar tinha “jurado de pés juntos”, na CPI da Petrobras, que “não tinha conta nem dinheiro no exterior, a mesma declaração que deu à Receita Federal e à Justiça Eleitoral” (sic).

O caso em si configura uma pauta-bomba de extrema relevância no cenário político nacional, justamente porque cabe ao deputado, que é presidente da Câmara Federal, admitir ou não o pedido de impeachment da Presidente da República, entre outros papéis de extrema relevância na condução de votações importantes (vetos e projetos, como a reforma fiscal do governo federal).

Mas, como isso foi noticiado nas páginas das principais revistas semanais do país – Época, Veja e IstoÉ? Mesmo nos jornalões, quem se arriscou a puxar para a capa, com o devido destaque, a confirmação de que Cunha e seus parentes são donos de US$ 5 milhões num banco suíço? A não notícia é o reflexo fiel de como se articula o monopólio da mídia comercial no país.

Caso é notícia na Europa, mas aqui...

O assunto foi solenemente ignorado nas capas das revistas comerciais brasileiras (edições de 07/10/2015, veja a imagem ao lado), exceto CartaCapital que destacou em sua manchete “Levy contra o governo”, mas deu em chamada de capa o caso das contas do deputado na Suíça. A opção de não noticiar revela o DNA, a essência do monopólio de informação e opinião praticado pela mídia tradicional, no país.

Para que o leitor tenha uma ideia mais precisa, o site da revista Época só descobriu as informações sobre o dinheiro da família Cunha na manhã de ontem (segunda, 05/10/2015), quando publicou reportagem intitulada “Eduardo Cunha: Abalroado pelos segredos da Suíça” (Fonte: http://migre.me/rITAt). E finalmente, a descoberta da notícia mais velha dos últimos dias é destacada sob o título: “A descoberta de contas bancárias no paraíso fiscal enfraquece o presidente da Câmara, Eduardo Cunha. Acuado como jamais esteve, Cunha viu seu partido aderir à reforma proposta por Dilma”.

A jornalista Vera Guimarães Martins, ombudsman do jornal Folha de S. Paulo, analisando criticamente a cobertura que aquele diário fez do caso, resumiu no título de sua coluna semanal (ed. 04/10/2015): “Pouco barulho para uma pauta-bomba” (Leia aqui:http://migre.me/rITIN). Escreve Vera: “A notícia acachapante sobre o terceiro nome na linha de sucessores da Presidência da República é escândalo digno de manchetes bombásticas em qualquer democracia, mesmo numa acossada por escândalos em série, como a brasileira”.

Ao contrário do que se esperaria, em nome da relevância jornalística e política do fato, a Folha fez malabarismo, publicou em espaço hierarquicamente secundário, dividindo o alto da capa com “caramelos” do tipo centenário do cantor Orlando Silva, futebol e até as 30 opções para quem não come carne... “Pode-se dizer que o prato principal cedeu espaço à sobremesa”, ironiza a ombudsman.

O esperado editorial, que se o personagem fosse outro, seria contundente e devastador, talvez puxado para a capa como no ultimato à Presidente Dilma, pegou muito leve, e nas palavras da própria advogada do leitor, reservou “enorme dose de boa vontade ao aventar a possibilidade de que a informação da Suíça pudesse estar errada” (fonte cit.). A ação da Folha, absolutamente em sintonia com as revistas Veja, Época e IstoÉ, confirma a regra do monopólio que tanto mal faz à jovem democracia brasileira: aos “amigos” tudo; aos “inimigos”, os rigores da Lei. Dura lex, sed lex ma non troppo...

Silêncio mafioso e manipulação

O jornalista Luis Costa Pinto (ex- editor de Veja e Época) classificou como "omertá" o silêncio das duas revistas semanais sobre as contas de US$ 5 milhões de Cunha e família, na Suíça. Ao portal noticioso Brasil 247 ele declarou: “O silêncio das revistas semanais, em suas capas, desconhecendo a chegada ao Brasil dos documentos que comprovam a existência de contas secretas de Eduardo Cunha e de sua família na Suíça não é omissão. É omertá” (Fonte:http://migre.me/rIUiK).

Em linguagem da máfia, é o código de conduta silenciosa adotado pelos integrantes do crime organizado, quando flagrados com a “boca na botija”. A queda de Cunha solapa toda a narrativa da crise, diuturnamente alimentada pelas empresas de comunicação, desde as eleições presidenciais, em 2014. Nos últimos 10 meses, as principais empresas de mídia, no país, deixaram de lado quaisquer pudores e se dedicaram exclusivamente à causa do encurtamento do mandato de Dilma Vana Rousseff, seja por impeachment ou inviabilização e crise aguda, que desembocaria numa renúncia.

Outro arguto observador da cena político-midiática, o jornalista Fernando Morais, publicou em sua página no Facebook, a propósito do “estranho” comportamento das revistas citadas: “O presidente da Câmara dos Deputados é acusado pelo governo da Suíça de manter várias contas secretas no país para a lavagem de dinheiro – fato que ele havia negado diante de uma CPI. E o que é o assunto de capa das três maiores revistas nacionais? O ex-presidente Lula”. Contudo, Morais critica duramente o governo por não ter enfrentado o monopólio da mídia: “É a merecida paga que o PT recebe por ter, durante doze anos, chocado o ovo da serpente com verbas publicitárias do Estado”.

O editor do portal Viomundo, Luiz Carlos Azenha, acrescenta relevante observação à crítica de Fernando Morais: “É a técnica de vencer pelo cansaço. Mesmo quem não lê fica sujeito ao bombardeio das capas distribuídas em 40 mil pontos de venda de todo o Brasil”. Com efeito, nos displays de supermercados das principais redes de varejo do Brasil, as capas de Época, Veja e IstoÉ, rodaram centenas de milhares de vezes aos olhos de milhares de pessoas, alimentando a desinformação, mas cumprindo fielmente o papel de “formar a opinião pública”, no limite mais miserável da superficialidade.

O jornalista Paulo Nogueira (diretor editorial do site Diário do Centro do Mundo, o DCM) é mais contundente em sua análise: “É a morte do jornalismo semanal. E uma morte infame, desonrosa, suja. Tantas revelações em torno de Eduardo Cunha com suas contas na Suíça, e nenhuma revista semanal o deu na capa. O que ele precisaria fazer para ir para a capa da Veja, da Época e da IstoÉ? A mídia fala tanto em corrupção e, quando aparece um caso espetacular destes, finge que não viu. É uma amostra do que a imprensa sempre faz quando se trata de político amigo: joga a corrupção para baixo no tapete. Isto se chama manipulação”.

(*) Professor da Faculdade de Comunicação da UnB; pesquisador do Laboratório de Sociologia do Trabalho (LASTRO/UFSC) e do Observatório da Ética Jornalística (objETHOS/UFSC).

A banalidade do mal

Muitas mãos invisíveis estão sujas de sangue. De apresentadores de TV que pregam o moralismo do extermínio a autoridades que a cada assassinato cometido pelo Estado repetem: não vamos recuar. De políticos que se alimentam eleitoralmente de cadáveres aos cidadãos de bem que aplaudem justiçamentos.

Por Marcelo Freixo
na Folha

Muitas mãos invisíveis seguravam a arma do PM que assassinou Eduardo Felipe Santos, 17, cuja morte foi filmada por moradores do Morro da Providência, centro do Rio. O policial foi o autor do disparo, mas não puxou o gatilho sozinho.

Muitas mãos invisíveis estão sujas de sangue. De apresentadores de TV que pregam o moralismo do extermínio a autoridades que a cada assassinato cometido pelo Estado repetem: não vamos recuar. De políticos que se alimentam eleitoralmente de cadáveres aos cidadãos de bem que aplaudem justiçamentos.

Após o julgamento do oficial nazista Adolf Eichmann, condenado pela execução de milhões de judeus, a filósofa Hannah Arendt criou o conceito de banalidade do mal. Ela se impressionou ao ver que os autores de crimes tão bárbaros eram burocratas, homens comuns, banais.

Essa banalidade é aqui representada pela execução de Eduardo. Após assassiná-lo, o PM pôs uma arma na mão da vítima e a disparou para simular o confronto. O ato burocrático: decidir tirar friamente a vida do jovem supostamente envolvido com o tráfico.

A legitimação social da violência e a doutrina militar da guerra, essência da PM, fazem com que o mal seja banalizado e rotineiramente praticado por uma "massa burocrática de homens perfeitamente normais", como escreveu Hannah. Ele atinge os próprios policiais, que matam e morrem muito. Em 2015, 56 foram assassinados no Rio.

Há exemplos históricos dessa burocratização. Em 1995, o ex-governador do Rio Marcello Alencar transformou o extermínio em política de Estado ao conceder bonificações por atos de bravura a policiais. A gratificação faroeste dobrou a quantidade de "execuções".

O relatório da Anistia Internacional "Você Matou meu Filho!" é contundente. Entre 2010 e 2013, 1.275 pessoas foram mortas pela polícia na capital carioca. Destas, 99,5% eram homens, 79% eram negros e 75% tinham entre 15 e 29 anos de idade.

Este também é o perfil da maioria dos policiais mortos na insensatez de uma guerra que atinge os mais pobres.

Infelizmente, suas tragédias têm servido apenas para reafirmar a violência e atacar a defesa dos direitos humanos, não para sensibilizar a opinião pública sobre a violação dos direitos dos trabalhadores da segurança.

Boa parte das famílias de policiais é atendida pela Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa do Rio, que presido, como no caso do soldado Bruno Pereira, torturado e morto por traficantes.

A sociedade que trata a violência como ritual de redenção coletiva, ao dar à polícia o direito de decidir sobre a vida e a morte, está condenada à barbárie. Ela faz da sua história um cortejo fúnebre.

Extraído do blog do jornalista Manuel Dutra
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Comentário do blog: Perfeita, caro Samuel Lima, simplesmente perfeita sua análise.