sábado, setembro 26, 2015

Quem está errado, nós, ou os políticos?

             A ladainha é sempre a mesma: essa é a pior Câmara que eu já vi! Vem eleição, vai eleição e a conversa não muda há décadas. Então, o que será que está errado? Somos nós, os eleitores, de cujo meio saem os políticos para todos os cargos eletivos? Será que nos engamos sempre na hora de escolher um candidato, ou somos eternamente enganados por eles, que agem como cordeiros na hora de pedir o voto, mas, depois mostram o lobo que verdadeiramente são? O problema está no sistema político, que coopta a todos que se elegem, mesmo aqueles que a gente considerava antes de eleitos, gente boa, ou será que é um conjunto de fatores que engloba tudo isso?
            Particularmente, cheguei à conclusão, há muito tempo, de que existe um pouco de tudo nisso. Nem sempre foi assim tão escrachado como é nos dias de hoje. Falando especificamente da figura do vereador, lembro muito bem que quando eu era adolescente, e mais tarde durante minha juventude, essa figura era respeitada. Quando alguma família era visitada por um edil, aquilo era motivo de comentários a respeito do prestígio que aquela família tinha. Porém, isso se perdeu no tempo, e o que se vê hoje é uma completa depreciação.
            Vereador é uma pessoa do meio do povo, que na maioria das vezes, antes de se lançar na política, goza de boa reputação. Muitas dessas pessoas que chegam ao parlamento municipal são engajadas em causas sociais, ou em movimentos comunitários. E por se destacarem nessa ou naquela atividade, terminam entrando para a política. Mas, quando chegam ao sonhado mandato eletivo parece que se transformam para pior, causando grande decepção naqueles que acreditaram que seria diferente.
            Por que será que acontece uma mudança tão brusca? A culpa é apenas de um vereador recém-eleito, ou tem mais culpados? É óbvio que tem uma grande parcela de culpa do próprio político que se elege prometendo fazer uma coisa, que jura que vai ter um comportamento diferente do usual, mas, quando senta na cadeira conquistada na base do voto muda radicalmente de atitude, mas, tem mais gente envolvida nesse processo.
            Para se elegerem, os políticos em geral não se acanham em mentir à vontade, prometendo o que não podem cumprir. Para ganhar votos, tem candidato a vereador que promete asfaltar ruas, fazer pontes, recuperar vicinais, coisas que fogem à sua competência. Mas, ganham porque tem gente que acredita. Isso é muito pior quando se trata dos candidatos a prefeito, que após eleitos precisam construir a maior base de apoio possível na Câmara, para navegarem em águas mansas. E é aí que entra a tal mudança de comportamento do vereador.
            Afirmando que não é possível fazer coisa alguma durante o mandato se estiver contra o prefeito, quando se elege por outro grupo político, o nobre vereador não tem a menor cerimônia em trair os seus eleitores, muitos dos quais acham isso a coisa mais natural do mundo, porque é assim que funciona a política.   
E nesse instante entramos nós em ação. Ou, pelo menos deveríamos entrar, repudiando o fisiologismo que é uma praga na política brasileira, onde a prática dos interesses do detentor do mandato está sempre acima dos interesses coletivos. O prefeito oferece alguns empregos e mais algumas vantagens pessoais para aquele que poderia ser um adversário político durante todo o mandato, se continuasse na oposição, enquanto o vereador aceita defender o que muitas vezes é indefensável. Esse é o X da questão. O fisiologismo, que é um câncer na política nacional. E aí entramos nós, eleitores, de novo, caindo na conversa mole desses maus políticos, em vez de tomar uma posição firme, repudiando-os.
A coisa que menos um vereador faz, com raras e honrosas exceções é fiscalizar o Poder Executivo, que deveria ser sua principal missão, pois pelo menos as pessoas que votam conscientemente esperam que isso aconteça. Na maioria das vezes não há interesse do parlamentar em exercer essa função. Todavia, aqueles poucos que desejam fazer isso, esbarram nas dificuldades que os prefeitos criam para que os documentos sejam disponibilizados para o Poder Legislativo. Os tribunais de conta são de difícil acesso até mesmo para quem é vereador, sobretudo pela questão da distância.
Sei que o que eu proponho aqui não é fácil de fazer na prática, mas, pode ser que alguém se disponha. Que tal pedir para o candidato que a gente vier a escolher para votar para vereador se comprometer, por escrito, com as metas que ele propuser, dentre as quais, fiscalizar de verdade o Executivo? Que tal pedir para que todos os candidatos a prefeito registrem em cartórios seus programas de governo? Acho que já será um bom começo. O resto é conversa furada.

Artigo de Jota Parente, publicado na edição 204 do Jornal do Comércio, circulando