sexta-feira, setembro 04, 2015

Jornalismo em Itaituba, uma pauta em construção

Adelson Sousa
A população de Itaituba, assim como a maior parte dos brasileiros, tem pouco acesso a fontes alternativas de informações e entretenimento como jornais, livros, filmes ou peças teatrais e com isso, este espaço acaba sendo ocupado pelo rádio, internet e a TV que se sobressai por estar presente em 98% dos domicílios do país.
Neste artigo vou me ater a analisar um pouco da atuação dos meios de comunicação de massa em Itaituba, que entendo ser uma espécie de pauta jornalística em construção. Especialmente pelo dinamismo que o setor deve se impor e nem sempre pratica. O dia a dia está mais dirigido ao chamado jornalismo chapa branca, onde se buscam logo as notícias nas repartições públicas, para depois abrir espaço as demandas sociais.
O problema maior é propalar os poucos feitos e deixar de questionar o muito não feito pelas autoridades, e assim ajudamos a construir ou perpetuar no poder pessoas nocivas. Vivemos numa sociedade baseada na informação e devemos entender que o grande jogo do poder se dá na mídia.
Para melhor entender um pouco do contexto do município que tem 158 anos de existência, a chegada dos meios de comunicação em Itaituba ocorreu por volta dos anos oitenta do século passado, portanto, é recente. Os feitos são elogiáveis dentro das especificidades de um município privilegiado por suas potencialidades naturais, energética (anunciada construção das pelo menos 5 hidrelétricas no rio Tapajós), florestais (exploração desordenada da madeira), portuária (uma dezena de portos de multinacionais para a escoação de grãos sendo construídos no Distrito de Miritituba), além da famosa mineral, cuja exploração do ouro ultrapassa meio século levando muita riqueza para fora e deixando aqui uma ínfima quantidade o que é suficiente para ser anunciado como responsável pelo maior percentual da economia local.
Dentro deste espectro de riquezas naturais o município tem passado por ciclos econômicos, e a chegada dos meios de comunicação ocorre atendendo um fato que, com exceções, é corriqueiro no Brasil. Os donos de grandes fortunas buscam assumir o poder político visando à ampliação deste e o domínio dos meios de comunicação para a sua sustentação ou perpetuação no poder. Daí a imposição ou limitação do campo de atuação do profissional de comunicação no Brasil e evidentemente em Itaituba, aqui com o agravante da imposição do medo no período de alto índice de violência no auge da garimpagem, onde poderosos mandavam na vida e determinavam a morte de muitos. Hoje a onda de violência volta a aumentar com o advento do tráfico de drogas.
Todos esses fatores tem proporcionado um crescimento desordenado do município e diante da medíocre atuação da classe política local e regional, os meios de comunicação podem prestar um relevante serviço contribuindo para a construção de um desenvolvimento sustentável, que favoreça um convívio humano mais justo e com mais qualidade de vida.
Reportando mais diretamente a atuação dos meios de comunicação e dos profissionais do setor em Itaituba, observamos que medianamente cumprem seu papel de manter a população informada dos fatos que interessam a sociedade. A estrutura tecnológica atende com um funcionamento de qualidade audiovisual satisfatório. No aspecto do quadro de pessoal também temos uma atuação significativa, que precisa ser mais reconhecida economicamente e na atualização de conhecimentos específicos da área. Na valorização profissional a Associação da categoria, que tem atuado no setor social, deve se apresentar e cobrar melhorias assim como os direitos como a data base para reajuste salarial dos trabalhadores.
Especificamente nos programas jornalísticos temos um até compreensível excesso de comerciais, nos intervalos e os irritantes testemunhais dentro do programa. Claro que isso faz parte do controle do capital (mercado) que sustenta as empresas, mas essa cultura imposta deve ser gradativamente alterada para a valorização do principal, a informação e a quem ela é dirigida.
Compreendendo todos estes aspectos e com a iminente chegada dos grandes empreendimentos a Itaituba e de milhares de pessoas, precisamos ultrapassar o trivial e passar à construção de uma pauta mais questionadora em relação a demandas.
Registro exemplos da péssima oferta de serviços públicos, como a segurança (carência de estrutura física, equipamento e pessoal). Saúde (falta de medicamentos, material e profissionais principalmente médicos das áreas específicas em quantidade suficiente para atender). Infraestrutura: (ordenamento urbano, combate à ocupação do espaço público por construções particulares, construção de um terminal rodoviário e ampliação do aeroporto).
Meio ambiente (degradação do rio Tapajós, licenciamento para construção de portos, para a exploração madeireira, do ouro e demais minerais, combate à ocupação e destruição de lagos, córregos e igarapés em plena cidade e no interior). Transporte (combater altos preços e péssimo serviço de embarcações e lanchas do transporte Itaituba/Santarém) ou na balsa que faz a travessia Itaituba/Miritituba). Educação (pouca presença das universidades públicas, precário funcionamento das escolas federal, estaduais e municipais e baixos índices de aprovação e frequência). Espaços de lazer (definir e respeitar os existentes nos bairros para praças, campos de futebol é áreas públicas específicas). Abastecimento de água e energia elétrica (altos preços e serviço sofrível e até inexistente em bairros da cidade).

Não mudaremos a realidade, pois, nossa responsabilidade maior é informar, mas, muito podemos contribuir para mudanças necessárias se passarmos a sistematicamente cobrar o não feito e deixar de exaltar o pouco, pouquíssimo mesmo que fazem as autoridades. (Adelson Sousa, professor e jornalista)

Artigo publicado na edição 203, comemorativa dos dez anos do Jornal do Comércio