segunda-feira, agosto 10, 2015

A crise ética e moral do Brasil

Marilene Parente - O professor Edivaldo Bernardes, durante uma conversa que teve com um jovem estudioso, porém, de nariz um pouco empinado, querendo derramar seu conhecimento sobre os outros, que havia uma coisa que o jovem só teria quando chegasse à sua idade: a experiência de vida, pois a gente só adquire a experiência de uma pessoa de 60 anos, quando se chegar a essa idade.
Um dia desses, meu filho Parentinho estava conversado com seu pai, afirmou: pai, a gente não deve fazer tal coisa (não lembro o que foi) porque Deus castiga, não é? Não, meu filho, disse-lhe o pai, não devemos fazer coisas erradas, não por medo de castigo, seja dos pais, ou de Deus, ou de quem quer que seja; não devemos transgredir, porque isso é errado.  E do alto dos seus 64 anos ele me falou que foi assim que conduziu a criação dos seus três filhos mais velhos.
Isso me remete à crise de ética e moral que este país vive há muitos anos, crise essa que está intrinsecamente ligada ao jeitinho brasileiro de fazer as coisas. Somos um povo que leva muito a sério a máxima que diz  que o que não é proibido é permitido. Se não existe uma lei aprovada pelo Congresso, proibindo uma determinada coisa, logo, eu posso fazer.
O professor Yves de La Taille, psicólogo, desde a década de 1980, se dedica ao campo da psicologia moral, ciência que investiga os processos mentais que levam alguém a obedecer ou não regras e valores. Francês de nascimento, naturalizado brasileiro, ele é uma autoridade no assunto, sendo professor na USP. Eis o que ele diz sobre esse tema.
A sociedade atual está passando por uma crise ética. Os indivíduos não são mais responsáveis pelas suas ações e jogam para as costas do outro a obrigação de dizer como agir. Furar filas, dar propina para o guarda de trânsito para não ser multado, roubar energia, furar sinal luminoso de trânsito são coisas que todo mundo faz, então, eu também vou fazer, pensa muita gente. Isso é o mesmo que ocorre com quem não mata porque acredita que é contra o que Deus quer, e não por princípios próprios.
La Taille deixa claro que não é contra as regras. "Pelo contrário, elas têm boas intenções. Como a que proíbe o cigarro em locais fechados para não prejudicar os não-fumantes", explica.
            Um dos pontos que defende é que a sociedade deve incentivar a formação de princípios nas pessoas, em vez de simplesmente puni-las pelo que fizeram de errado. Por exemplo, levar motoristas a entenderem porque não devem correr em alta velocidade, e não obrigá-los a mudar a atitude por medo de uma multa ou instalar radares de trânsito que gerem o estímulo pela sanção direta. O mesmo vale para a escola, abordada pelo autor em seus trabalhos.
A crise na ética é mundial, ressalta ele. A lógica da sociedade capitalista incentiva a competitividade e a produtividade, que são as bases do sucesso profissional. Esses princípios são usados frequentemente como justificativa para quebrar a ética. Pense, por exemplo, em um funcionário que espalha boatos negativos sobre o colega para subir na carreira, onde os fins justificam os meios. Se você teve a sorte de ter uma família com princípios éticos, parabéns!
            Há uma crise ética no Brasil. Não apenas porque somos bombardeados por situações e atitudes revoltantes todos os dias, mas também porque o próprio conceito "ética" é usado com vários pesos e várias medidas diferentes. Sem ter clareza sobre isso, é fácil se perder no debate, não saber o que pensar - ou pior - achar que não temos nada a ver com o assunto.
Ética não é uma simples lista de condutas a serem seguidas, ou uma tabela fechada que diz o que é aceitável e o que não é. Debater a ética é um exercício coletivo de pensar e refletir sobre as atitudes humanas e suas consequências. Ética não se compra em livraria, ou nesses sites da internet que vendem de tudo. Ética aprende-se em casa.
Se você teve a sorte de ter uma família com princípios éticos, parabéns! Caso contrário, só tenho a lamentar por você e, principalmente pela sociedade na qual você está inserido. O respeito ao outro é o primeiro passo para o resgate da ética. Comecemos praticando esse passo. Muitas vezes, o canalha que se procura no outro, está na nossa frente, no espelho.

Artigo publicado na edição 202 do Jornal do Comércio, circulando