quinta-feira, julho 16, 2015

É preciso discutir o problemas das drogas de frente

           Jota Parente - Um dos assuntos mais polêmicos dos últimos anos é a defesa da descriminalização do uso de drogas, que tem sido tratado com extrema ortodoxia em muitos países que enfrentam situações muito graves, dado o crescente número de dependentes químicos. O secretário de segurança do estado do Rio de Janeiro, que está no cargo há muitos anos, está convencido de que isso tem que ser discutido a sério, logo.
            Ele afirmou semana passada, durante uma viagem que fez a Portugal e França, onde proferiu palestras sobre sua experiência, que a guerra contra as drogas, definitivamente, está perdida. Disse que no Brasil, não pode passar desse governo a descriminalização do uso.
Beltrame ficou impressionado com os resultados obtidos em Portugal após a descriminalização de todas as drogas, inclusive heroína, cocaína. O programa começou em 2000. No Brasil, não pode passar deste governo a descriminalização do uso, afirmou ele. A guerra à droga é perdida, irracional. Podemos começar pela maconha, disse ele, que convidou os portugueses para vir ao Brasil na Semana do Policial, em novembro, e contar a experiência de seu país.
Em Portugal, o assunto “drogas” não está inserido na polícia, mas no Ministério da Saúde. Com a ajuda de juízes, procuradores, psicólogos, médicos, e integrantes da sociedade civil. A polícia pega o usuário e ele é convidado a participar de encontros. São 90 clínicas em Portugal, completas com toda a assistência, voluntários e visitas. E uma comissão fiscaliza isso. Todos se juntaram para combater essa doença, porque o vício é uma enfermidade, e não um crime. Sem vaidade, sem luta de poder.
Por acaso, você conhece alguém, que algum dia tenha deixado de consumir a droga desejada, somente porque é proibida no Brasil? Acho que ninguém conhece, porque quando uma pessoa se torna um dependente químico, ela vai procurar o produto que satisfaça o seu desejo incontrolável de “fazer uma viagem”, seja onde for.
Nenhum país do mundo gasta tanto dinheiro no combate às drogas como os Estados Unidos. Não há na face da terra quem faça um combate tão feroz quanto os norte-americanos. E qual tem sido o resultado dessa guerra? O aumento do tráfico, o enriquecimento dos carteis mexicanos e o surgimento cada vez em maior número, de grupos internos que vivem do comércio das drogas. E sabem por quê? Porque existe demanda no mercado, há poder aquisitivo que atrai mais e mais traficantes a correr o risco de parar atrás das grades, pois onde há dinheiro “fácil”, há atração forte em busca dele.
Quando eu era adolescente, na década de 1960, a única droga da qual se falava na minha cidade era a maconha, e os maconheiros eram quase todos conhecidos por seus nomes, pois não havia proliferação do uso da cannabis sativa. Remotamente, ouvia-se falar no uso de uma ou outra droga legal vendida nas farmácias.
Eu tive sérios problemas com uma droga legal, o álcool. Algumas pessoas para as quais falo disso ficam espantadas, porque quando cheguei a Itaituba em 1988, já não bebia há oito anos. Mas, foi duro vencer a dependência. Todavia, nunca experimentei outras substâncias tóxicas. Pelo contrário! Fazia apologia contra o uso de drogas em geral.
A maneira que encontrei de praticar a prevenção entre os meus três filhos mais velhos foi falando do problema, de frente, sem esconder nada, inclusive, minha experiência mal fadada com o álcool. Ingo, Glenda e Raoni cresceram sabendo que seu pai havia enfrentado uma batalha árdua até chegar à sobriedade em relação ao álcool; cresceram ouvindo o pai mostrar em todos os detalhes através de informações consistentes, a desgraça que as drogas causam na vida das pessoas. A mesma coisa já estou fazendo com o Parentinho, do qual não escondo nada sobre esse polêmico tema.

A gente vai vivendo e aprendendo, e muitas vezes mudando alguns conceitos. No meu caso, confesso que não faz tempo que comecei a pensar sobre essa questão da descriminalização do uso de drogas, porque do mesmo modo que o secretário José Beltrame, também entendo que a guerra contra elas está perdida. Não que eu defenda que se possa colocar uma banquinha na esquina de casa para vender maconha, cocaína, crack, etc... Todavia, tanto o governo quanto a sociedade precisam discutir o assunto sem reservas, enquanto que no seio das famílias, a única coisa que se pode fazer é preparar os nossos filhos para se desviar desse monstro que destrói a vida dos seres humanos que se envolvem com ele, destruindo inclusive as famílias. O resto é conversa fiada. 

Artigo da edição 201 do Jornal do Comércio, circulando hoje