sexta-feira, setembro 26, 2008

Léo Rezende: 20 anos voando para os garimpos, do Tapajós – Parte II

Na primeira parte do seu relato, Léo Rezende falou das dificuldades da aviação de garimpo, proporcionadas sobretudo pelas condições precárias da maioria das pistas; tratou da questão do grande número de acidentes, que resultaram na morte de 150 pilotos no lapso de tempo relativo há dez anos; falou, também, de sua atividade como garimpeiro, concomitante com a de piloto. Nesta edição ele conclui, abordando aspectos da violência, que notabilizou Itaituba, tanto quanto as extravagâncias dos garimpeiros que bamburravam. Léo relembra um fato pitoresco que aconteceu num vôo de Rondonópolis para Itaituba, que ele contou na edição do JC, comemorativa do sesquicentenário de Itaituba.
Eu vi muita coisa acontecer, principalmente na década de 1990, período em que eu ficava muito mais tempo dentro dos garimpos do que na cidade, porque a gente passou a voar de lugares mais próximos aos garimpos, que serviam de pontos de apoio. A gente utilizava as pistas do Crepurizão, Porto Seguro, Moraes Almeida, Km 64, Novo Progresso. A gente saía de Itaituba e voava desses lugares, pois assim os donos de garimpo diminuíam os custos dos vôos. Isso fazia com que a gente terminasse ficando mais lá dentro. Além disso, como eu também era dono de garimpo, presenciei, sim, muitas cenas de violência, muitas delas, aconteceram muito próximo de mim.
Vi muitas brigas e algumas mortes. Tive uma experiência muito ruim nesse sentido. Nunca cheguei a ser diretamente ameaçado, mas, corri alguns riscos que seriam quase inevitáveis pelo clima da época. Uma dessas experiências foi particularmente marcante.
Numa ocasião eu pernoitei numa pista, no garimpo São João, para onde eu tinha levado o time do garimpo de minha propriedade (pista comandante Arara) com o objetivo de jogar uma partida de futebol. Transcorreu tudo normal no jogo, mas, à noite o local foi invadido por homens de outro garimpo, a pista Nova, determinados a matar o dono do lugar onde eu me encontrava
Eu estava dormindo na casa do dono do garimpo, que era o Raimundão - que terminou morrendo em Boa Vista, mais tarde -, quando houve a ameaça de invasão. Eu passei a noite toda acordado, com duas armas na mão, um revolver e uma espingarda, vigiando uma janela, sentado e fumando um cigarro atrás do outro. O dono da casa disse que se alguém entrasse era para eu atirar, porque se eu não fizesse isso eles me matariam e só depois é que descobririam que eu era o Léo Rezende.
Eu passei a noite acordado e aquilo foi muito desgastante, tanto física, quanto psicologicamente. Eu acho que eu perdi de três a quatro quilos naquela noite. Aquele foi um dos momentos mais difíceis que eu passei no garimpo. Hoje, quando lembro, parece que foi um filme que eu assisti, mas foi tudo muito real.
Foi uma noite de cão, mas, felizmente não houve a invasão. De madrugada os invasores foram embora. Mas, o bom senso mandava que a gente não saísse Na medida em que o dia foi amanhecendo a gente pode constatar que os homens tinham se retirado. Quando a gente teve certeza que não havia mais perigo, saímos da casa e eu voltei para minha pista. Acho que isso aconteceu no ano de 1989.
Afora isso, houve outro tipo do que a gente pode considerar como violência, que foi o caminho que tomaram alguns bons amigos, colegas de profissão, homens bons, trabalhadores, que não conseguiram se adaptar na aviação de táxi aéreo, aviação executiva, enfim, e infelizmente partiram para uma atividade ilícita, o que muitos fazem até hoje. Nessa atividade muitos morreram, enquanto muitos foram presos. Essa é uma página sofrida que a gente tem na aviação. Eu não entendo direito o que leva uma pessoa de bem a se envolver com o narcotráfico, com o transporte de drogas e tudo mais. Lamentavelmente, isso é verídico e não há como esconder.
Em dezembro de 1999, pouco antes do Natal daquele ano, eu deixei Itaituba para viver em Macapá. Não posso dizer que isso não tenha se divido, ao menos um pouco, à desaceleração da aviação nessa região, provocada pela queda do movimento de garimpo. Entretanto, o que mais motivou minha saída foi o desejo de tentar fazer alguma coisa nova. Eu estava estabilizado em Itaituba e podia continuar vivendo bem aí, mas, surgiu essa vontade de fazer algo novo.
O editor chefe do Jornal do Comércio, meu querido amigo Jota Parente, pediu que eu contasse algum fato engraçado que tenha acontecido comigo em vôo. Não recordo de nenhum tão pitoresco quanto aquele que contei por ocasião da passagem dos 150 anos de Itaituba, que me rendeu diversos telefonemas de Itaituba, de amigos que riram bastante com o fato.
Lá pelos idos dos anos 1990, vinha eu pilotando um avião utilizado na aviação de garimpo, o qual acabara de sair da revisão, na cidade de Birigui, em S. Paulo. A aeronave estava recém pintada, com bancos novos, enfim, quase tudo novinho, exalando aquele característico cheiro gostoso de coisa nova, recém saída da fábrica. Ao descer em Rondonópolis, no Mato Grosso, um colega piloto perguntou se dava para ele trazer um senhor de idade que vinha para Itaituba. Como só trazia uma pessoa, disse que não haveria problema. O avião foi abastecido e a gente levantou vôo, mas não imaginava que estava começando uma aventura completamente diferente das que tinha enfrentado até aquele momento, depois de alguns anos de vôos para garimpos.
O senhor que embarcara em Rondonópolis, mais ou menos uns trinta minutos depois da decolagem avisou. “Seu Léo, eu estou ruim da barriga e o negócio está apertando”. Agüente, disse eu, pois o avião não tem banheiro”. Mais uns quinze minutos depois o homem voltou a falar da situação. “Seu Léo, tá apertando eu não sei se vai dar para agüentar”. Agüente, respondi, pois não tenho jeito a dar aqui em cima”.
Na terceira vez o homem pediu que eu desse um jeito, pelo amor de Deus, pois não tinha mais como evitar. Foi quando eu, na tentativa de pelo menos diminuir o estrago, pedi ao passageiro que viajava na cadeira do co-piloto, que passasse um saco de plástico um pouco maior do que aqueles usados quando alguém sente náuseas a bordo, para que o outro pudesse se aliviar. Assim foi feito, mas o resultado foi pior do que o esperado. O homem estava com uma infecção intestinal violenta e o odor no interior da aeronave ficou insuportável.
Eu pensei rápido no que poderia fazer para melhorar o ambiente e tive uma idéia que considero não ter sido das melhores. Abri a janelinha do lado do piloto e do co-piloto, diminui a velocidade do avião e pedi para que o passageiro que viajava ao meu lado pegasse o saco com os excrementos e jogasse para o lado de fora. Arrependi-me amargamente daquela decisão tomada nas alturas, pois foi exatamente como jogar merda no ventilador. Por causa da força do vento da hélice, uma parte foi jogada contra o pára-brisa e boa parte retornou para dentro do avião, sujando-o desde o teto, até os bancos, que até aquele momento estava limpos e cheirosos.
Lembro bem que o tempo que restava de vôo até Itaituba pareceu uma eternidade. Depois que estacionei o avião desci correndo para tomar um senhor banho e pedi que a aeronave passasse por uma lavagem completa. Após essa experiência, eu não aconselho nenhum colega meu a fazer o mesmo, caso passe pela mesma situação. Hoje em dia, quando lembro desse fato e o conto, dou muitas risadas, mas, na hora não teve graça nenhuma.
Não gostaria de concluir meu relato, sem antes citar alguns nomes, para fazer justiça a verdadeiros desbravadores, heróis que tiveram uma enorme importância na história dessa atividade, na região do Tapajós. Nomes como o comandante Flávio da Real, que hoje mora em Santarém, o Pai Velho, esse exemplo vivo que tem que ser respeitado e homenageado sempre, o Careca e tantos outros que foram pioneiros, os quais abriram caminho para os colegas mais novos como eu.
Uma coisa que foi marcante para a aviação de garimpo foi a Associação dos Aeronautas do Vale do Tapajós. Essa associação foi fundada em 1984 e o grande idealizador dela foi o Bessa, o comandante Pedro Leão Bessa. Ele teve a idéia da entidade porque a gente ainda estava em pleno regime militar, período em que havia uma repressão muito grande. A finalidade da associação era nós nos unirmos para enfrentar a repressão dos militares, que era muito forte em cima da nossa atividade. As fiscalizações eram muito arbitrárias. A associação cumpriu o seu papel. Além do Bessa, participaram da fundação, o coronel Sanches, o Xerife, eu e o Dr. Semir Albertoni, que tinha chegado há pouco tempo a Itaituba.
Nós nos reunimos no escritório do Dr. Semir, que ficava na casa da dona Carminha, em frente ao Fórum. Essa reunião teve a finalidade de tratar da questão de estatuto e de toda a parte legal da associação. Os pilotos foram se associando e a entidade cresceu. Uma das nossas grandes conquistas foi trazer o exame médico de pilotos para Itaituba, o que foi uma coisa inédita no Brasil. A gente não precisou mais sair daqui, por um bom tempo, para fazer os exames em Belém ou em Manaus. Isso durou quase oito anos. Depois o benefício foi estendido para outros lugares.
A aviação de garimpo não termina aqui sua participação nesta série. Fará apenas um intervalo para destacar a história de Rui Mendonça, o próximo destaque da série 50 anos da Garimpagem de Ouro no Tapajós. Ainda falta falar de Pai Velho e de outros que fizeram história na aviação de garimpo,nesta região.