sexta-feira, agosto 29, 2008

Zé da Roça, um polivalente no garimpo


Trinta e cinco anos de vida passados no garimpo, a maioria deles no vale do Tapajós. Uma história recheada de fatos inusitados, que fazem de Zé da Roça, um personagem da vida real dos mais interessantes das milhares que foram escritas ao longo deste meio século. Nasceu no Piauí, na Barra do Maratoam, no dia 10 de fevereiro de 1934. Cedo, começou a trabalhar na roça, seguindo os passos da família. Há uns vinte anos deu uma entrevista para a revista Veja. Hoje, aos 74 anos, com uma saúde de dar inveja a muita gente mais nova, ele mora numa chácara, no Laranjal, onde a reportagem o encontrou para uma conversa de quase duas horas.


“Com dezessete anos eu casei, em 1952. Vivi doze anos com a primeira mulher. Não deu certo porque ela me botou umas perucas (de touro). A essa altura eu já estava vivendo no Maranhão, para onde eu me mudei em 1956, na esperança de ter ao menos o que eu tenho hoje, porque eu venho de uma família muito carente. Fiquei dez anos no Maranhão. Lá eu comecei a trabalhar com farmácia, mesmo com pouquinho estudo. Depois que o casamento acabou a vida desaprumou e eu resolvi vir para o Pará.


Cheguei a Belém; de lá me mandei para Santarém aonde eu cheguei urrando de liso. O trabalhou que eu arranjei foi catar litro seco, que eu lavava e vendia. Isso durou 28 dias até que eu consegui ir para Manaus e de lá para Porto Velho, com a idéia fixa de ir para o garimpo. Fiquei um tempo em Ariquemes com o velho João Estrela, cuidando da farmácia, aplicando soro. Ele era muito brincalhão e começou a me chamar de doutor Sopapo. O pessoal chegava e perguntava: cadê o doutor Sopapo?


Estava lá quando surgiu a notícia de que no Aripuanã tinha um garimpo onde a gente enchia uma garrafinha de diamante ligeirinho. Eu me empolguei. Pensei: pegando diamante bom a gente se arruma ligeirinho; eu vou morrer de rico. Mas, não foi como eu esperava que fosse, o que fez com que eu só ficasse quatro meses. Voltei para Porto Velho e de lá fui para Santarém. Quando cheguei lá o Zeca Furtado estava juntando gente para levar para o garimpo. Eu perguntei quanto ele cobrava e ele me disse que para brabo (sem experiência) eram trinta dias de trabalho.


No dia 28 de junho de 1968 eu pisei pela primeira vez num garimpo do Tapajós. Chegando na pista do Marupá eu coloquei um jamanxim nas costas pela primeira vez. Foi nessa data que eu cheguei ao garimpo do Pau D’Arco. Trabalhei quatro meses, até que a malária me pegou pra valer. Eu pedi o meu saldo, mas o Zeca Furtado não quis me dar, porque o ouro que tinha ele disse que era para o Zé Arara. Ruim como eu estava me mandei para o Marupá. Gastei dois dias, numa viagem que a gente fazia em seis horas. Onde anoitecia eu dormia.


Sozinho no mundo eu tinha que me virar de qualquer jeito. Assim, cheguei ao Marupá, muito ruim, mas não tinha para quem apelar. Fui procurar o Bebé Sudário, que tinha uma roça a qual o fogo só tinha queimado um pouco pelo meio e perguntei se ele tinha serviço. Quando ele viu o meu estado, que não era nada bom, pois eu cheguei ao Marupá me arrastando de doente, com uma anemia danada, disse: Pra homem eu tenho serviço, mas pra defunto o lugar é bem ali, disse ele, me mostrando o cemitério que era bem pertinho. Eu fiquei zangado com aquilo, mas, fazer o que?


Passados uns seis dias, eu já tinha tomado uns remédios e estava bem melhor. Nisso fui procurar o Raimundo sudário para pedir que ele intercedesse junto ao irmão dele, o Bebé, para que ele me desse um serviço, pois eu já estava devendo e tinha que pagar quem tinha me ajudado na precisão. Em pouco tempo eu deixei a roça em condições de ser plantada. Quando eu plantei foram dizer para o Bebé que o arroz estava muito junto igual cebola. Eu disse que deixasse comigo, porque daquilo eu entendia.


Depois que eu plantei disse que queria ir embora. O Bebé Sudário me falou que era para eu ir para Santarém, para a casa dele, me tratar, pois eu tinha melhorado, mas não estava bom ainda. Lá fui eu, para ser tratado pelo Dr. Manoel Fernandes. Fiquei vários dias até que achei que estava no ponto de encarar a dureza do trabalho novamente. Depois disso, nunca mais tive um dia de malária. Durante mais três anos eu continuei fazendo roça para o Bebé, com trinta ou mais linhas. Aí, outras coisas, outras atividades começaram a aparecer.


Agricultor, farmacêutico, enfermeiro e delegado


O apelido de Zé da Roça pegou lá no Marupá. Quando chegava alguém perguntando pelo enfermeiro a turma dizia: quem, o Zé da Roça. Aí, pegou. Nesse tempo, passados uns dois anos eu fiz uma roça pra mim, de umas trinta linhas. O Bebé achou ruim, querendo saber com ordem de quem eu tinha feito. Eu disse que eu fazia o que quisesse com o dinheiro que ele me pagava. Mas, a terra é minha, disse ele. Quem foi que disse que é sua? Você não tem documento nenhum dela, então eu posso plantar.


A essa altura eu já era muito procurado pelo pessoal para passar remédio, fazer curativos e costurar gente cortada. Peguei uma caixa de sabão e arrumei dentro dela um pouquinho de remédio que tinha e comecei a vender. Era uma coisainha de nada. Era medicamento para malária e outras coisas. Tinha hepavitan, dextrovitase, paludil, paludan, anecrosan, anecromin e um bocado de comprimidos.


Estava difícil porque o Bebé não deixava eu comprar remédio para aumentar o estoque. Queria que eu ficasse no cabresto, trabalhando na roça dele e na farmácia. Foi aí que o finado Valdemar, sobrinho dele me pediu o dinheiro e comprou o que eu precisava. Nisso, o Allfredo Andrade, que já tinha me ajudado quando eu estava doente, soube o que estava acontecendo e me chamou querendo saber o que estava acontecendo. Depois que eu contei ele disse que era para eu escolher um lugar para fazer um barraco no terreno dele, podendo ficar o tempo que eu quisesse. Se eu fizesse alguma benfeitoria, seria dele, mas, lá, ninguém mexeria comigo. Assim eu fiz.


Ao mesmo tempo em que atendia quem precisava de remédio, eu cuidava da minha roça de mandioca, que foi uma coisa que ajudou a fazer com que eu melhorasse de situação. Mal terminava de fazer a farinha e o pessoal já estava esperando para comprar. Para encurtar a história, com um ano nesse serviço eu tinha com o que comprar a pista que o Bebé, que foi me oferecer por 65 mil cruzeiros. Eu disse que dava no monte, mas não queria que não ficasse nenhum Sudário lá. Como ele disse que não dava para tirar o pessoal da família dele, eu não comprei. Eu continuava sendo agricultor, farmacêutico e enfermeiro, atendendo a todos os que me procuravam, com dinheiro ou sem dinheiro.


Um belo dia desceu uma guarnição da Polícia Militar para pegar uns Sudário que tinham matado o Alemão e o Cearazinho. A ordem era levar de qualquer maneira, o Elias, o Bebé e o Antônio. O Raimundo era calmo. Eu conversei com o sargento, ao qual pedi que não fizesse aquilo, pois as famílias deles iriam ficar passando necessidade. Só tem um jeito de eu não leva-los, me disse o sargento. E qual e? perguntei. Se você aceitar ser o delegado daqui, para botar ordem, porque seu nome é muito forte; você é muito respeitado. Deus me livre e guarde duma desgraça dessas, respondi. Então eu vou levar os homens, falou o sargento. Não faça isso, pedi de novo.


O sargento me fez uma proposta que eu aceitei: fazer uma votação na manhã seguinte para o pessoal decidir se queria ou não que eu fosse delegado. Eu topei e fui cedinho falar com a turma que trabalhava nos baixões, que era para votarem contra mim. Quando chegou na hora da votação o sargento disse: quem for a favor de que Zé da Roça seja o delegado, fique no lado direito; quem for contra, passe para o lado esquerdo. Todos passaram. Aí não teve jeito, tive que aceitar o cargo, mas exigi que só ficava se me mandassem uma carteira de delegado. Passados oito dias recebi a tal carteira.


Eu não agia como um delegado, mas, como um presidente de comunidade, procurando resolver as coisas por meio do entendimento. O Barba de Aço, um garimpeiro que era macho, que não enjeitava parada, eu consegui acalmar várias vezes. Quando perguntavam se ele tinha medo de mim ele respondia: não, o que eu tenho é respeito, porque ele me trata melhor do que meu pai.


Aquela vida de delegado de garimpo não era vida pra gente não. Se uma mulher enganava um homem, se um homem enganava uma mulher, corriam lá com o Zé da Roça. Felizmente, com muito jeito, eu consegui fazer um bom trabalho durante uns três anos. Nunca precisei disparar um tiro contra ninguém. Com calma e boa conversa estou aqui hoje para contar a história.


O auge, tempos difíceis e o presente


Não tenho nenhuma dúvida de dizer que Zé da Roça foi o pai a pobreza no Marupá por diversos anos. Quando eu estava numa situação muito favorável, com comércio grande de secos e molhados, com farmácia, nunca deixei de atender a todos. Quando a fase é favorável a gente ganha dinheiro fácil. Eu fiquei numa situação realmente muito boa. Houve dia em tinha 43 redes de doentes, armadas no meu barracão


No trabalho do garimpo, mesmo, eu nunca peguei muito ouro. Teve um baixão onde eu me dei bem, do qual tirei quatro quilos e oitocentos gramas. Peguei bastante ouro no meu comércio. Às vezes vinha para cidade fazer compras e eu trazia três quilos de ouro ou mais. Acontece que eu pegava e investia. Eu moro numa casa de madeira, não porque eu não tenha podido construir uma de alvenaria. Eu preferi investir em outras coisas para prevenir o futuro.


Tem um bocado de coisa em que não acredito, mas, o tal de olho grande, esse existe e a gente tem que se defender dele. Digo isso, porque quando eu estava no auge começou uma perseguição contra mim. O Toninho Sudário, que o Diabo o tenha no Inferno, botou um pistoleiro chamado Pinto, para me matar. Mas, mas o cabra era ruim de tiro e acertou numa lata de farinha que estava do lado. Eu saí atrás dele, disposto a matar. Mas, graças a Deus, não precisei sujar minhas mãos de sangue e espero nunca precisar em toda minha vida, pois quando eu cheguei na beira do rio ele já tinha fugido.


A perseguição foi grande em cima de mim. Um dia, depois que eu voltei de Santarém, onde fui atender o chamado de um advogado, o Toninho Sudário me peitou. Eu ainda era delegado nesse tempo. Eu falei para ele, que se ele quiser trocar tiros comigo a gente trocava na hora. Ele saiu rosnando, mas foi embora.


As coisas foram dando errado e eu fui tomando abuso pelo meu trabalho. Um dia, chegou uma mulher da vida em casa, m pleno dia. O comércio estava fechado porque eu não tinha ânimo para abrir. Ela disse: Zé, abre essa porta! O que é que está acontecendo contigo? Tu estás te entregando? Eu estava com um quilo e setecentos e oitenta gramas de ouro, em casa, ouro meu e mais quatro quilos e meio dos outros. Eu chamei o pessoal para receber o ouro deles, pois queria sair para Itaituba para me tratar. Aqui procurei o seu Alemar, que me disse que não me vendia mais nenhum comprimido, porque o meu problema, médico nenhum podia dar jeito.


Onde hoje é a Loja Giorama era o Hotel São Francisco. Eu ia passando por lá e parei para conversar com a Maria do Paulinho, que trabalha no hotel, contando tudo o que estava acontecendo comigo. Ela me disse: tu não estás vendo o que o homem (seu Alemar) está te dizendo? Bem ali tem uma velha que chegou de Fortaleza, que manda chover. A velha disse que faria o trabalho, mas que lá dentro não iria de jeito nenhum e garantiu que o que era meu estava perdido, pois tinham feito um trabalho brabo pra cima de mim. Ela ainda falou que se eu fosse lá, levasse logo o caixão, ou então teria que sair matando gente para não morrer. Se daqui a oito dias você não estiver bonzinho eu paro de trabalhar. E tem mais: a derradeira pessoa que vai lhe trair vai ser sua mulher, que vai lhe abandonar quando você blefar. Fiquei um ano e meio sem ver ela. Um dia, quando eu fui a Santarém ela estava dando os pulos dela por lá com outros, como a velha tinha dito.


Ajudei muita gente, mas também fui ajudado por diversos amigos que foram solidários nas horas de dificuldades, como o finado Raimundo Dias, que foi um homem que se condoeu de mim na hora do maior aperto. O Goiano também me ajudou bastante, no Marupá. Hoje, vivo tranqüilo com a renda da fazenda que tenho no Guajará, porque soube guardar, mesmo tendo passado por momentos difíceis. Não tenho mágoa de ninguém. O que tenho são boas lembranças, como dos crioulos, homens direitos, que pagavam tudo direitinho. Eu fazia questão de vender para eles. O Caetano, o James, o Felipão, o René, o Zé Crioulo e outros, tudo gente boa. Eu ainda vou voltar ao garimpo. Tenho um negócio aí que eu não posso falar muito. Mas eu vou voltar lá, e não vai demorar.